Viktor Frankl: reflexões sobre um grande psiquiatra

Por Jesús Gallego.

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Este texto foi redigido por ocasião do falecimento de Viktor Frankl, ocorrido em Viena, em 2 de setembro de 1997, aos 92 anos de idade. Era doutor Honoris Causa de 29 universidades da Europa, América e África, entre as quais a Universidade de Brasília – UnB (1988) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS (1984).

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[dc]F[/dc]aleceu em setembro passado o prestigioso psiquiatra Viktor Emil Frankl. Era catedrático de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena, e professor de Logoterapia na Universidade Internacional de San Diego (Califórnia). Ocupou diversas cátedras nas universidades de Harvard, Stanford, Dallas e Pittsburgh. Autor de 27 obras, traduzidas para 23 idiomas, entre as quais O homem em busca de sentidoA presença ignorada de Deus e A Psicoterapia ao alcance de todos. Foi o fundador da Logoterapia ou, como diversos autores a denominam, da terceira escola vienense de Psicoterapia, depois das de Freud (Psicanálise) e de Adler (Psicologia Individual).

Se a sua memória vem agora a estas linhas é porque considero sua obra como sendo de enorme interesse, tremendamente divulgativa e de uma pedagogia difícil de encontrar em outros autores.

Penso que se pode resumir o seu pensamento, contando com o perigo que há em todos os reducionismos, numa frase de Nietzsche que aparece de maneira insistente nos seus escritos: quem tem um porquê para viver, suporta quase qualquer como. Sua experiência no campo de concentração nazista de Auschwitz, descrita nas pouco mais de cem páginas do seu livro O homem em busca de sentido, bem como as reações psicológicas dos seus companheiros e sua capacidade de sobrevivência, nos mostram o sentido dessas palavras: os que tinham algo para amar profundamente, uma família, um Deus, uma esposa…, ou algo que somente eles deveriam realizar, eram os únicos que sobreviviam, pois para todos chegava um momento, difícil de superar, de esgotamento, de desespero e de abandono, e quem não contava com algo distinto de si mesmo porém dentro de si mesmo – sua transcendência – sucumbia diante da tentação do suicídio, de atirar-se contra as cercas ou simplesmente de jogar a toalha: deixar de lutar pela própria vida, que a essa altura parecia carente de sentido.

Isso é o que em resumidas contas nos queria transmitir o professor Frankl. Em face da Psicanálise de Freud, na qual impera um desejo de prazer – Sigmund Freud via no homem um ser natural, sem ter em conta o seu caráter espiritual, dirá Frankl –; perante da Psicologia individual de Adler, que centra toda a sua teoria no desejo de poder, no afã de valer, o fundador da Logoterapia interpreta o homem como um ser que em última instância e propriamente está buscando um sentido. Porque o homem está sempre orientado para algo que ele próprio não é: ou um sentido que realiza, ou outro ser humano com quem ele se encontra; o próprio fato de ser homem vai mais além dele próprio, e essa transcendência constitui a essência da existência humana. Essas palavras suas, incluídas numa conferência que pronunciou no XIV Congresso Internacional de Filosofia, em Viena (1968), nos trazem de volta o homem como ser transcendente, espiritual, no qual o encontro (o amor) e a realização (o cumprimento da própria missão) supõem a satisfação de um desejo de sentido existencial. Daí toma o seu sentido a frase de Karl Jaspers, que diz que o homem só se torna homem quando se dá aos outros.

Para Frankl a crise moderna deriva precisamente de um vazio existencial, que se manifesta através do conformismo (o homem só busca ou quer o que os outros fazem) ou do totalitarismo (só faz o que os outros querem), provocando uma atitude provisória diante da existência.

Mas não é somente nas situações extraordinárias que o homem deve transcender a si próprio: se assim fosse, tampouco nessas situações seria capaz de o fazer. É no dia a dia que o homem há de ter a clara consciência da sua missão pessoal. Encontrar (mais do que dar) um sentido para a sua vida, através da sua consciência, numa tarefa, num objetivo. A necessidade de saber que existimos para algo – ou para alguém – provoca a conseguinte atividade. Esse desejo de sentido pleno, abrangente, nos fortalece, servindo até mesmo de freio para a nossa desaparição existencial. Está demonstrado que as pessoas que se aposentam e depois não têm uma atividade substitutiva com valor psíquico igual ao da sua profissão, costumam adoecer cedo ou tarde. Até os animais têm mecanismos psíquicos parecidos, pois aqueles que trabalham nos circos, tendo portanto uma tarefa a fazer, vivem mais do que os animais que permanecem inativos.

A maturidade humana vem naturalmente quando seguimos a nossa consciência, que nos manda organizar o nosso futuro, e intervir sempre que seja possível; mas que também exige de nós a disposição para carregar, quando chegar a hora, o peso do nosso destino, e dar ao sofrimento uma orientação verdadeira. Penso que Viktor E. Frankl, como tantos outros homens, encontrou e seguiu o sentido da sua vida, deixando-nos um horizonte aberto para podermos percorrer o nosso próprio caminho. Nossa tarefa agora será a de nos apropriarmos dessa sua maturidade.

Fonte: Apologetica.org | Tradução: Quadrante

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