Realização profissional em Viktor Frankl

Por Rodrigo Cardoso.

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[dc]V[/dc]iktor Emil Frankl nascido em Viena em 26 de março de 1905. Neurologista e psiquiatra, morreu aos 92 anos. Médico judeu, foi prisioneiro por longos e penosos anos em Auschwitz, mas conseguiu sobreviver. Ressurgiu do inferno dos campos de concentração nazista sem rancor, mágoa ou amargura, com uma das mais belas mensagens de esperança que o mundo já viu. Foi sem dúvida um gigante do nosso tempo e é certamente alguém que fala com conhecimento de causa sobre o sentido da vida humana, que segundo ele, jamais deixa de existir por mais miserável que seja a situação do indivíduo.

O Dr. austríaco, através da sua impressionante trajetória de vida, cria o conceito de doenças noogênicas, bastante desafiador na medicina até então, dado que a psicanálise sempre estudara o homem segundo um viés bastante imanentista, olhando apenas para as causas somáticas e psíquicas do sofrimento humano, ignorando as propriamente espirituais.  Noogênico quer dizer proveniente do espírito. Com isso ele desenvolve um dos mais impressionantes sistemas de terapia já construídos, a chamada “logoterapia” ou terapia do discurso. Um dos poucos sistemas que parece não ser ser incompatível com uma visão do ser humano de acordo com as grandes tradições religiosas do legado judaico-cristão. Não está no mesmo nível das “linhas psicoterápicas” já existentes, nem pretende ser uma espécie de filosofia pura e simples; muito menos usurpar o papel próprio da Religião. Talvez se possa aferir que a logoterapia está no meio termo entre eles. Engloba um conjunto de esquemas lógicos que busca desmontar os subterfúgios racionais pela qual a mente doentia poderia concluir que a própria vida é destituída de significado.

Mas o que ele tem a nos ensinar sobre realização profissional? Absolutamente tudo. Desgraçadamente a maioria dos pedagogos, educadores e psicólogos que atuam em orientação vocacional nem mesmo sabem o que é realização profissional exceto raras exceções. Infelizmente muitos não passam de papagaios repetidores de chavões e frases de efeito. Basta uma simples maiêutica para se chegar a uma série de contradições internas e definições circulares. No final das contas, a grande lição de “sabedoria” é sempre a mesma. Aconselham uma série de adolescentes indecisos, a seguir as suas próprias tendências afetivas; sem aquilatar se as mesmas são imaturas, caóticas ou desajustadas. Qualquer oposição a tal ensinamento é politicamente inadequada.

Segundo Stephen Kanitz (administrador por Havard), a repetição do mantra “fazer o que se gosta”, é um conselho confuso, perigoso e por vezes equivocado. Ele afirma que no mundo real, empresas pagam profissionais para fazer o que a sociedade acha importante e necessário ser feito, não aquilo que os funcionários gostariam de fazer. Ele constata ainda que uma sociedade em que todos os membros escolhem profissionalmente o que gostam; é uma verdadeira utopia e só seria possível a custa de caos e desordem social. Nas suas palavras:

Seria um mundo perfeito se as coisas que queremos fazer coincidissem exatamente com o que a sociedade acha importante ser feito. Mas, nesse caso, quem tiraria o lixo, algo necessário, mas que ninguém quer fazer?

Suas palavras podem ser pragmáticas e cruéis mas não deixam de ser verdadeiras. Podem acusá-lo de um pensamento utilitário mas pelo menos seu pragmatismo tem mérito no altruísmo daquele que faz aquilo que tem de ser feito em comparação com o hedonismo do egoísta que só “faz aquilo que gosta”.

Isso porém não significa que o indivíduo deve escolher uma profissão ou trabalhar em algo que odeia. Só está se afirmando que é extremamente simplista polarizar de forma cristalizada o ser humano nos seus gostos, aptidões e preferências. Sempre me pareceu um reducionismo enorme afirmar que o homem só pode ser feliz no trabalho em uma determinada profissão específica. Isso é reduzir a complexidade humana e a importante decisão profissional à tendências afetivas e aptidões momentâneas. Habilidades podem ser aprendidas e novos talentos descobertos. Os sentimentos humanos são extremamente volúveis. Tomar decisões perenes, tendo-os como base é um erro crasso. O campo afetivo do homem pode e deve ser educado pela inteligência e pela vontade. A  educação dos sentimentos é tema já abordado por C.S. Lewis na sua obra clássica: “A abolição do homem”.

A solução, portanto, para o impasse, segundo Stephen Kanitz, é aprender a gostar daquilo que se faz, através da busca da excelência e da satisfação do cumprimento do dever.Em suma, trabalhar em algo que se gosta, é consequência de aprender a gostar do próprio trabalho. Ensinamento simples e muitas vezes mais adequado, do que aconselhar a mudança de profissão e um recomeço trágico a partir do zero.

Porém a educação dos sentimentos alicerçada apenas nesses dois fatores indicados (busca da excelência e cumprimento do dever), é; apesar de importante, ainda incompleta segundo o meu entendimento. O que principalmente educa os sentimentos e os faz mover em determinada direção é a beleza. Gostamos de determinado trabalho, quando temos a convicção que determinado modo de ser, de viver é bom e belo. Ama-se o cumprimento de um dever, seja ele profissional ou acadêmico, quando visualiza-se seu aspecto de beleza (Juan Luis Lorda). A moção dos afetos proporciona um enorme incremento de espírito de sacrifício. Nesse sentido, é perda de tempo ficar escrevendo mais a respeito. Nenhuma consideração teórica substitui a força de uma paixão retamente orientada.

Viktor Frankl reconhece que na plenitude da moralidade, bens e deveres se confundem mas vai além e disseca ainda mais o que seria esse bem, essa satisfação da realização profissional. Seria a realização profissional meramente um sentimento agradável que dimana do homem como consequência do exercício exclusivo de uma determinada atividade profissional? A resposta de Frankl a esse questionamento é surpreendente e certamente escandalizaria nossa geração de pedagogos e psicólogos.

Frankl identifica o sentido da vida com o exercício de certos valores humanos, que segundo ele podem ser divididos em três categorias. Valores criativos, valores vivenciais e valores de atitude. Defende também que não há circunstância possível, por mais absurda que seja, no qual ao menos um deles (o valor de atitude) não possa ser exercido. Para não perder o foco, tratar-se-á aqui apenas dos valores criativos.

A realização dos valores criativos, ocupa o primeiro plano da missão na vida e a sua esfera de consumação concreta costuma coincidir com o trabalho profissional, cuja o caráter de irrepetibilidade faz-se presente de forma decisiva. O trabalho constitui, assim, uma possibilidade de colocar-se a serviço dos outros. É nesta possibilidade de ser uma contribuição e expressão original, que o trabalho ganha relevância e significado para a pessoa, constituindo-se ocasião de descoberta e integração da própria personalidade. Torna-se, então, fundamental a maneira como se trabalha, adquirindo menor importância a tarefa em si. Nas palavras de Frankl:

Em particular, o trabalho pode representar o campo em que o “caráter de algo único” do indivíduo se relaciona com a comunidade, recebendo assim o seu sentido e o seu valor. Contudo, este sentido e valor é inerente em cada caso à realização (à realização com que se contribui para a comunidade) e não à profissão concreta como tal. Não é, por conseguinte, um determinado tipo de profissão que oferece ao homem a oportunidade de atingir a plenitude. Neste sentido pode-se dizer que nenhuma profissão faz o homem feliz.(…) Nos casos em que a profissão concreta não traz consigo nenhuma sensação de plena satisfação, a culpa é do homem que a exerce, não da profissão. A profissão, em si, não é ainda suficiente para tornar o homem insubstituível; o que a profissão faz é simplesmente dar-lhe a oportunidade para vir a sê-lo. (Frankl, 1989)

Para Viktor Frankl a realização profissional é independente da profissão. A satisfação e a realização profissional está vinculada portanto à expressão da singularidade e unicidade do próprio ser em prol de uma comunidade, causa ou pessoa.

O que importa não é, de modo algum, a profissão em que algo se cria, mas antes o modo como se cria; que não depende da profissão concreta como tal, mas sim de nós, o fazermos valer no trabalho aquilo que em nós há de pessoal e específico, conferindo à nossa existência o seu caráter de algo único, fazendo-a adquirir, assim, pleno sentido. (Frankl 1989)

A vocação profissional é apenas parte da vocação maior antropológica do ser humano e a ela deve estar submetida. Deve portanto se curvar ao chamado de uma missão em particular que só pode ser executada pelo próprio indivíduo e mais ninguém. Tal chamado antropológico não pode ser inventado ou criado e sim descoberto. O ser humano possui naturalmente no seu interior uma “sede de infinito” que o transcende. Dificilmente esse sumidouro interno poderia ser aplacado por uma atividade profissional em si, por mais complexa que seja, pelo simples fato de ser sempre limitada. Nesse contexto a possibilidade de realização profissional, segundo o viés do homo religiosus, que vê no oferecimento à Deus dos sacrifícios e litígios inerentes ao trabalho; uma forma de santificação da própria alma; é extremamente apropriada e complementar.

Fonte: Fides quaerens intellectum

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