Os usuários de crack e a busca de sentido: uma leitura logoterapêutica da dependência

Por Shirlei Maria de Oliveira e Mauro Fraga Paiva. Centro Universitário Salesiano de São Paulo – U.E. Lorena.

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[dc]R[/dc]esumo: Ao longo da História, o uso abusivo de substâncias psicoativas tem sido uma prática corrente em todos os grupos sociais e culturais. Na atualidade, o fenômeno da dependência química, especificamente a do crack, cresce a níveis alarmantes. Para melhor compreensão deste fenômeno, recorremos aos pressupostos da Logoterapia – abordagem centrada no sentido, criada pelo psiquiatra e psicólogo austríaco Viktor Emil Frankl (1905-1997). A proposta deste trabalho é divulgar os recursos logoterapêuticos para que sirvam como suportes no auxílio aos profissionais de saúde (médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, etc.) que se encontram envolvidos na luta contra o crack – da prevenção ao tratamento. Na busca de compreender a dependência química, foi possível vislumbrar novas dimensões da realidade, e possíveis maneiras de promover qualidade de vida e alívio do sofrimento ao usuário através do resgate de valores, da busca de um novo sentido que propicie uma forma de viver autêntica e em plenitude.

Palavras-Chave: crack, dependência química, Logoterapia, sentido da vida.

Introdução

No decorrer da História, o uso abusivo de substâncias psicoativas tem sido uma prática corrente em todos os grupos sociais e culturais. Independentemente da classe econômica do indivíduo, seu nível intelectual e cultural, o fenômeno da dependência química cresce a níveis alarmantes em nossa época.

A partir da mistura de cocaína em pó ou pasta-base de coca, água e um agente, normalmente o bicarbonato de sódio, a produção do crack parece ter sido motivada por dois fatores: grande quantidade de pasta-base e dificuldade de mandá-la para o refino, trabalho que requer estrutura especializada (UCHOA, 1996, p.37)

É difícil precisar onde surgiu sua produção e comercialização. No século XX, mais precisamente na década de 80, a pressão policial para identificar os laboratórios de refino de cocaína que começavam a se instalar nos Estados Unidos obrigou os traficantes a espalhar a função de refino para os demais países. Entretanto, a dificuldade de exportar a massa bruta motivou seus detentores a trabalhar na produção de uma nova forma de exportá-la e comercializá-la (Id., p.37).

Antes que fosse possível prever as consequências devastadoras de seu uso, o crack já havia se espalhado, e conquistado milhões de adeptos em todo o mundo. E na atualidade, apesar de toda a campanha preventiva alertando pelos perigos do consumo desta droga, as estatísticas demonstram o crescente número de usuários.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE, 2009) o crack atinge atualmente no Brasil 1,2 milhão de pessoas que começam a usar a droga por volta dos 13 anos. O que impera nas concepções acerca do consumo do crack é a intensidade de seus efeitos e sua alta capacidade de causar dependência no indivíduo.

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-IV:

A característica essencial da Dependência de Substância consiste na presença de um agrupamento de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos indicando que o indivíduo continua utilizando uma substância, apesar de problemas significativos relacionados a ela (DSM-IV, 2002, p.208).

Estudos neurocognitivos comprovam que os usuários de crack podem sofrer déficits neuropsicológicos relacionados à atenção, memória visual, fluência verbal, memória verbal, e ainda, interferência na capacidade de aprendizagem e das funções executivas (CUNHA et. al, apud, SILVA, 2009, p.15). Desta forma, o abuso do crack aprisiona a saúde do indivíduo à sua avidez, provocando prejuízos cognitivos e relacionais que o imputam a uma insaciável busca dos efeitos da droga.

O crack, a droga mais destruidora já fabricada pela ganância humana, tem uso tão simples e preço tão baixo que qualquer pessoa pode carregá-lo na bolsa, até uma criança. São os reféns da droga que escraviza e mata de forma fulminante. Os pequenos cristais porosos estalam em contato com o fogo e fazem um barulho – crack!, o sentido da vida de todos eles (UCHOA, 1996, p. 33).

Para melhor compreensão deste fenômeno sob a ótica da Psicologia, recorremos aos pressupostos de uma de suas vertentes, a Logoterapia – abordagem centrada no sentido, criada pelo psiquiatra e psicólogo austríaco Viktor Emil Frankl (1905-1997). Trata-se de uma das dissidências da psicanálise freudiana surgidas em Viena e uma das muitas teorias sobre motivação básica do comportamento humano.

Através da revisão de literatura, buscamos divulgar os recursos logoterapêuticos como suportes para auxiliar os profissionais de saúde (médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, etc.) que se encontram envolvidos na luta contra o crack – da prevenção ao tratamento.

1. Conceitos Fundamentais da Logoterapia.

Viktor Emil Frankl (1905-1997) é o fundador da Logoterapia, escola psicológica de caráter fenomenológico, existencial e humanista, conhecida, também como a “Psicoterapia do Sentido da Vida” ou, ainda, a Terceira Escola Vienense em Psicoterapia. Seu pensamento é embasado em suas experiências enquanto prisioneiro de campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial (PEREIRA, 2007, p.02).

Frankl vivera quase três anos como prisioneiro do governo nazista, entre 1942 e 1945. Nos campos de concentração, ele perdera sua mulher, seus pais e um irmão. Frankl referia-se a esse período como o experimentum crucis para suas idéias psicoterapêuticas (ROEHE, 2005, p.01).

A definição do termo “sentido” constitui a pedra angular sobre a qual se alicerça a visão de mundo subjacente à Logoterapia. Mas a expressão “sentido da vida” não engloba um sentido total, imutável e estático, e não deve ser analisado como tal (PEREIRA, 2008, p.01). O termo “vida” deve ser tomado como a existência concreta e singular de uma pessoa, num determinado contexto histórico e situacional.

O homem procura sempre um significado para sua vida. Ele está sempre se movendo em busca de um sentido de seu viver; em outras palavras, devemos considerar aquilo que chamo a ‘vontade de sentido’ como um interesse primário do homem (FRANKL, 2005, p.23).

A vontade de sentido surge na forma de resposta à vida. Frankl entende que a pessoa não deveria perguntar pelo sentido, mas sim perceber-se indagada pela própria vida. Isto significa que, conforme as circunstâncias se lhe apresentam, a pessoa deve responder na forma de uma ação comprometida com um sentido pessoal. Daí a importância da responsabilidade – a capacidade para responder (FRANKL, 2005, p.54).

Juntamente com a responsabilidade vem a liberdade. O ser humano é livre para decidir em face de suas possibilidades. Porém esta liberdade é limitada. O homem sempre se encontra envolto em situações que não escolheu. Sempre já nos vimos num determinado ambiente sociocultural, já apresentamos comportamentos específicos, já vivemos num determinado ponto espaço-temporal, etc. E são justamente tais limitações que nos permitem agir livremente, pois somente há liberdade frente a um destino ou frente a vínculos (Id., p.42). Não somos livres de nossas limitações, entretanto temos liberdade para nos posicionar diante delas.

Em sua busca por sentido, o homem está sempre voltado para algo além de si mesmo, para alguma coisa que está no-mundo, o que Frankl chama autotranscendência. O que implica no fato de que ser homem significa, fundamentalmente, estar em relação com ou orientado para qualquer coisa diferente de si próprio (Id., p.41). Somente quando transcende a si mesmo é que o ser humano pode realizar sua vontade de sentido.

A autotranscendência assinala o fato antropológico fundamental de que a existência do homem sempre se refere a alguma coisa que não ela mesma − a algo ou a alguém, isto é, a um objetivo a ser alcançado ou à existência de outra pessoa que ele encontre. Na verdade, o homem só se torna homem e só é completamente ele mesmo quando fica absorvido pela dedicação a uma tarefa, quando se esquece de si mesmo no serviço a uma causa, ou no amor a uma outra pessoa. É como o olho, que só pode cumprir sua função de ver o mundo enquanto não vê a si próprio (FRANKL, 1991, p. 18).

Frankl compreende o homem em três dimensões: biológica, psicológica e noética (do grego nous, significando espírito). No entanto, coloca a dimensão noética num patamar superior, uma vez que ela abrange todas as qualidades que diferenciam o homem dos demais animais, por isso é a dimensão genuinamente humana; aqui estão os valores, a criatividade, a livre tomada de decisões, a consciência moral, etc.

Conforme mencionado anteriormente, a vontade de sentido é a motivação básica do ser humano. Tal motivação não está livre de impedimentos; a realização de sentido pode ser frustrada e então ocorre o que Frankl chama de frustração existencial (FRANKL, 2006, p.93). A frustração existencial não é, necessariamente, patológica; é uma manifestação humana (sadia) que pode evoluir para um quadro mórbido. Ocorrerá, então, uma neurose noogênica, porque se origina na dimensão noética, fruto de problemas existenciais, especificamente humanos, como, por exemplo: conflitos morais, choque de valores, sentimento de falta de sentido de vida.

Uma vez que os principais conceitos da Logoterapia foram apresentados, segue uma reflexão sobre as motivações do consumo do crack, e o seu significado na vida de seus usuários.

2. Consequências Individuais e Sociais do Uso de Crack e o Sentido Como Fator Motivacional da Dependência.

O consumo de crack no Brasil tornou-se mais evidente em 1990. A primeira apreensão da droga no país ocorreu no ano de 1989, na grande São Paulo (LEITE, 1999, p.26).

Entretanto, o crack não é uma droga nova. Trata-se de mais um método de administração da cocaína. A infecção pelo vírus HIV é um exemplo da importância do fator via de uso na compreensão dos problemas relacionados ao consumo de drogas. Associando o vírus ao uso endovenoso, o crack surgiu como uma alternativa com potencial semelhante e ausência de riscos de infecção (GOSSOP, apud, LEITE, 1999, p.27).

Os primeiros episódios de consumo são marcados por euforia, sensação de bem-estar e desejo por repetir o uso. Com a continuidade do consumo, o dependente apresenta sintomas de ansiedade, hostilidade e depressão crônica. Em doses mais altas, surgem alucinações (visuais e auditivas) e finalmente a psicose cocaínica – extrema hipervigilância, delírios paranóides e alucinações (Id., p.27).

O consumo de crack produz imediatamente os efeitos psíquicos, com pico em cinco minutos. A intensidade da euforia obtida contribui significativamente para o potencial de dependência da droga; é também proporcional à fissura (craving) pela droga que surge logo que os efeitos começam a dissipar-se, 10 a 20 minutos depois, levando à nova administração. Os efeitos desagradáveis são igualmente intensos, contribuindo também para a readministração. As diversas readministrações podem durar dias, geralmente até o esgotamento do suprimento da droga (WEISS, apud, Leite, 1999, p.28)I.

As complicações médicas do consumo do crack são inúmeras, tanto clínicas, quanto psiquiátricas. A chamada co-morbidade é a ocorrência simultânea de dois ou mais transtornos clínicos em um mesmo indivíduo, e pode ser provocada também pelo consumo de substâncias psicoativas (LEITE et. al., 1999, p. 97).

Além das complicações de ordem física, psicológica e emocional, a dependência do crack provoca conflitos de outras naturezas. A maior parte dos usuários acaba se envolvendo com o tráfico de drogas para manutenção do vício, o que contribui para o aumento da violência no país.

A família dos usuários de crack também é atingida brutalmente. A desestruturação é o primeiro sintoma de suas consequências. O dependente é capaz de furtar bens dos próprios familiares para evitar o sofrimento decorrente da abstinência da droga. E quando contrariado, o usuário pode agredir verbalmente e fisicamente um ente querido, e em alguns casos, tal conflito pode resultar em morte: “[…] Já vendi roupa, o carro, tudo. Tudo o que cai na minha mão é pra comprar pedra” (UCHOA, 1996, p. 149), “[…] Não gosto nem de lembrar, mas ele batia nos irmãos mais novos e agredia eu e meu marido com palavras” (Id., p. 180).

Para a Logoterapia, o ser humano é capaz de sobreviver em qualquer circunstância da vida desde que exista uma razão para suportar tal sofrimento, desde que haja um sentido pelo qual valha à pena viver – ou morrer (FRANKL, 2006, p.92).

Dentro desta perspectiva, é possível repensar a questão da dependência sob dois aspectos: o usuário começa a consumir a droga porque não encontra um sentido na vida, e/ou após o uso do crack encontra algo que o motive a continuar vivendo, mesmo que isso signifique a abreviação de sua existência: “Fico com uma sensação de vazio enorme. Nada me completa, só as pedras…” (UCHOA, 1996, p. 105).

Cada ser humano é único, e sua história de vida, singular. O sentido também varia de pessoa para pessoa, e muda no decorrer da vida em virtude da situação que se lhe apresenta. No entanto, a busca de sentido é inerente ao ser humano, e para a Logoterapia o sentido é a motivação básica do homem.

Sendo assim, a busca de sentido determina toda e qualquer ação humana. Independente de o resultado trazer consequências boas ou ruins, o sentido é o que motiva as nossas escolhas. E esta busca, quando frustrada, provoca o vazio existencial. Este pode progredir para quadros mórbidos e implicar em patologias – as chamadas neuroses noogênicas. Em decorrência desta neurose, e aliada a fatores biológicos, psicológicos e sociais, o indivíduo pode decidir-se pelo consumo de drogas como um modo de se alienar da angústia da frustração (FRANKL, 2006, p.93).

Por outro lado, se tal indivíduo ao tomar consciência das implicações dos seus atos, e apesar de todo sofrimento continua resistente em procurar tratamento, sua condição de dependência pode estar permeada por um sentido – parafraseando Frankl – pelo qual vale a pena viver ou morrer. E este sentido precisa ser reconhecido para que se possa lidar de forma efetiva com o fenômeno da drogadicção.

3. Estratégias Logoterapêuticas para o Tratamento Contra a Dependência Química.

Frankl enfatiza que somos “livres para”, mas não somos “livres de”, uma vez que estamos sujeitos aos determinismos biológicos, psicológicos e sociais (RODRIGUES, 1991, p.99). Entretanto, e isto é o grande destaque de sua teoria, o homem é também um ser espiritual, e é esta dimensão que lhe dá condições de ir além dos condicionamentos.

É importante ressaltar que a espiritualidade não está ligada à religião, mas sim a uma capacidade específica e exclusiva do homem que é a de viver por um algo além de si, por um projeto ou uma causa. E não viver esta dimensão pode ser motivo para o chamado “vazio existencial”.

E é por esta razão que, em determinados momentos, nem a vida profissional, nem as riquezas materiais ou a satisfação de todos os instintos e necessidades humanas “básicas” são suficientes para preencher o homem, para saciar a sua sede de sentido, de infinito, de valores.

Didaticamente, dividiram-se, na Logoterapia, três classes fundamentais de valor em que o ser humano pode encontrar sentido em sua existência: o valor criativo que significa dar algo ao mundo, uma tarefa, uma obra, um trabalho; o valor vivencial que compreende receber algo do mundo, ou ir de encontro ao amor de outro ser humano; e, o valor atitudinal que consiste em posicionar-se diante de sofrimentos inevitáveis.

[…] também há sentido naquela vida que – como no campo de concentração – dificilmente oferece uma chance de se realizar criativamente ou em termos de experiência, mas que lhe reserva apenas uma possibilidade de configurar o sentido da existência, e que consiste precisamente na atitude com que a pessoa se coloca face à restrição forçada de fora sobre seu ser. […] Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá (FRANKL, 1985, p. 67).

Para o usuário de crack, a descoberta ou o resgate destes valores é de fundamental importância para a sua recuperação durante o tratamento contra a dependência, e também, para manter-se longe das drogas durante sua vida pós-tratamento. Mais do que procurar uma “ocupação”, o indivíduo precisa encontrar um sentido em sua criação, em suas experiências, e em seu sofrimento.

Em outras palavras, o que importa é tirar o melhor de cada situação dada. O potencial humano sempre permite transformar o sofrimento numa conquista, numa realização humana. Possibilita também, extrair da culpa a oportunidade de mudar a si mesmo para melhor, e fazer da vida um incentivo para realizar ações responsáveis (FRANKL, 2006, p. 119).

3.1. Atitudes de Enfrentamento do Sofrimento e da Dor como Técnica Logoterapêutica.

Freud, em sua obra “O Mal-Estar na Cultura” aponta três modos paliativos utilizados pelo homem em busca de alívio para o mal-estar que o assola como resultado de sua inserção na civilização: a atividade científica, a religião e a intoxicação (QUEIROZ, 2001, p.10). Na tentativa de evitar o sofrimento, o organismo busca satisfação em processos psíquicos internos, objetivando tornar-se independente do mundo externo, e, além disso, proporcionando sensações prazerosas (Ibid., p.10).

Partindo da idéia de Freud, de que o homem busca formas de alienar-se para atenuar o desconforto da civilidade, é possível conceber que, durante o tratamento contra a dependência, é necessário que o indivíduo tenha uma atitude de enfrentamento do sofrimento e da dor. Esta condição de transformar o sofrimento em algo construtivo é a base da filosofia logoterapêutica.

O crack desempenha um papel tão significativo na vida do usuário, que torná-lo consciente dessa dimensão pode contribuir muito para a sua capacidade de superar seus obstáculos. A responsabilidade por suas escolhas, o apropriar-se de si, e das consequências de seus atos, é o primeiro passo no processo de reabilitação do paciente.

Assumir a responsabilidade por sua condição é admitir sua liberdade de escolha, e não considerar-se joguete nas mãos do destino. Entretanto, esta atitude responsável só aparece na medida em que o indivíduo – seja ele dependente químico ou não – atinge certa maturidade em seu desenvolvimento. É difícil para o indivíduo enxergar suas possibilidades, quando não consegue vislumbrar suas limitações e sua culpabilidade.

Frankl, usando os termos da antropologia de Jaspers, fala na realização dos valores de atitude diante da tríade trágica da dor, da culpa e da morte. Considera privilégio específico do homem saber sofrer, assumir a culpa e considerar a transitoriedade e a finitude da vida (XAUSA, 1986, p. 163).

Deparar-se com a própria morte, admitir a fragilidade da vida pode levar o indivíduo a repensar sua postura frente às circunstâncias, e propiciar a descoberta de novas possibilidades, além de proporcionar uma oportunidade de ressignificar suas experiências.

Diante do exposto, é possível perceber que a logoterapia prescinde de técnicas, pois o que pretende, de fato, é confrontar o paciente com o sentido de sua vida e reorientá-lo para a busca desse significado. Desta forma, a atitude frente ao sofrimento é o ponto de partida para a reabilitação do dependente químico, e esta mudança na conduta envolve responsabilidade por suas escolhas – passadas e futuras.

Considerações Finais

É preciso considerar que, a privação do consumo de crack implica em sofrimento físico e psíquico, o que impulsiona o usuário a evitar a abstinência. No entanto, o seu uso, além de atenuar este sofrimento, traz consigo benefícios para o indivíduo (sensação de prazer, alienação, atenção dos familiares, etc.).

Frankl preconiza a importância de descobrir sentido no sofrimento, ou seja, transformar a dor em algo construtivo, em aprendizado. E para isto, o indivíduo precisa ser responsável.

É comum ao usuário de drogas, atribuir culpa a algo fora de si, numa tentativa de justificar suas escolhas. Ao procurar esquivar-se da culpabilidade, o usuário passa a viver em função de algo ou de alguém que a seu ver, tem o poder de decisão sobre a sua vida.

A responsabilidade é o ponto de partida para o tratamento contra a dependência química. Responsabilizar-se por suas escolhas – conscientes ou inconscientes, significa apropriar-se da sua própria condição humana. Agindo assim, o indivíduo será livre para escolher a atitude pessoal frente a toda e qualquer circunstância.

Durante o tratamento contra a dependência química, é função do terapeuta, desafiar o usuário com um sentido em potencial a ser por ele realizado. Somente assim despertaremos do estado latente a sua vontade de sentido.

É importante ressaltar que, o sentido é peculiar a cada ser humano. Cada qual tem sua própria vocação ou missão específica na vida. O que importa não é o sentido da vida de um modo geral, mas antes o sentido particular da vida de uma pessoa em dado momento.

A descoberta de um sentido é o que irá preencher o vazio existencial – ocasionado pela abstinência da droga, e nortear a vida do dependente químico durante e após o tratamento. E é o sentido que irá prevenir contra possíveis recaídas.

A Logoterapia é mais que uma técnica a ser usada no tratamento contra a dependência química. Seus conceitos-chave podem ser considerados como um alicerce para toda conduta humana. Mais que uma abordagem, a Logoterapia é um estilo de vida, uma forma de ver o mundo, e de posicionar-se diante dele.

Independente do momento vivido ou da dificuldade a se enfrentar, assumir uma postura logoterapêutica frente às circunstâncias significa apropriar-se de si, e buscar um sentido que proporcione uma forma de viver autêntica e em plenitude.

Referências

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Shirlei Maria de Oliveira. Graduanda do Curso de Psicologia do Centro Universitário Salesiano de São Paulo – U.E. Lorena. E-mail: shirlei_psicologia@hotmail.com.

Mauro Fraga Paiva. Orientador do Artigo; Psicólogo, Mestre e Doutor em Saúde Coletiva – IMS/UERJ; Professor da ênfase de Saúde Mental e Prevenção do Centro Universitário Salesiano de São Paulo – U.E. Lorena.

Fonte: Psicologado

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