O Sentido de Vida no Trabalho: contribuições da Logoteoria para a qualidade de vida do trabalhador

Por Pablo Lincoln Sherlock de Aquino (Universidade Federal de Campina Grande) e Fernanda Cagol (Centro Universitário Internacional – Uninter).

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[dc]D[/dc]esde o século XIX, com a explosão da Revolução Industrial na Inglaterra, a humanidade moderna caminha sob a égide dos efeitos das relações de trabalho – sejam voltadas ao relacionamento interpessoal ou aos aspectos operacionais –, considerando as radicais transformações no modo de vida dos produtores individuais e detentores do saber-fazer. A partir de então, essas pessoas passaram a seguir regras institucionais, a ter que se adaptar a uma cultura comum – muitas vezes, diferente de sua própria – a ter metas de produtividade e também a viver longe de suas famílias, única unidade de produção em que esposas e filhos ajudavam o artesão nas fazendas e oficinas.

Considerando a relevância da forma com que as sociedades antigas cunhavam o trabalho, percebe-se toda a atmosfera negativa que envolve a atividade. Ao adotar o termo tripalium para denominá-la, os romanos antigos associaram-na à tortura, uma vez que também usaram o mesmo termo para denominar um instrumento de tortura. O trabalho era então considerado “aquilo que tortura”. Filósofos como Platão e Aristóteles relacionavam o trabalho com o sentido de necessidade, contrapondo-se ao sentido de liberdade, pois, por consequência, aquilo que é necessário carrega consigo a conotação de obrigatoriedade, tolhendo a liberdade e a sobreposição do homem às coisas do mundo (Enriquez, 1999).

A QVT, como considerada neste trabalho, não está relacionada restritamente à ergonomia clássica americana, com base nos aspectos físicos e na harmonia do homem corpóreo com seu ambiente de trabalho no sentido estrutural. Inclina-se mais enfaticamente à atividade humana, tal qual a escola francesa de ergonomia a concebe.

De acordo com Matos Silva (2008, p.13), nesta perspectiva, “o ser humano não é um agente passivo que serve apenas para ser estudado em termos de características, é um elemento ativo que tem sentimentos, emoções, que pensa, que reage perante problemas e que deve, portanto ter uma postura dinâmica”. Todavia, não é desconsiderado que estudos de variáveis como iluminação, disposição de prateleiras, altura de cadeiras, entre outras, ao interferirem na postura e movimentos do corpo, influem também no estado mental do homem, causando-lhe possíveis insatisfações e desconfortos psicológicos diversos.

Nos mais variados ambientes laborais, situações como problemas financeiros, dificuldades no relacionamento conjugal/afetivo e falta de congruência entre o trabalhador, suas aptidões profissionais e suas atividades laborais vigentes, causam mal estar psicológico em virtude da falta de perspectiva de um motivo maior para o qual essa situação acontece, maculando a autoestima, agravando a ansiedade e o sentimento de desesperança, e, consequentemente, reduzindo o estado de motivação do trabalhador.

Este fenômeno pode ser entendido como falta de sentido e, segundo Guevara & Dib (2005, p.209), seus efeitos “vêm afetando diretamente o dia-a-dia das pessoas e empresas, produzindo stress físico e intelectual e doenças afetivas que terminam minando a saúde pessoal e organizacional”. Em outras palavras, estas questões podem, em parte, ser resultantes de uma leitura distorcida ou parcial da realidade, sem projeções de um “para que viver” determinada situação.

Estudar as possibilidades de aplicação de teorias de base existencial para o combate a essa problemática tem importância primordial para o bem estar psicológico e a consequente qualidade de vida do trabalhador. A Logoteoria de Viktor Frankl é uma das teorias que despontam como potenciais formas de conceber o homem no âmbito laboral etc., considerando as possibilidades de aplicação de seus conceitos e de valorização do ser humano enquanto livre e responsável para consigo e com seus pares, buscando sempre um sentido para a vida, mesmo que seja nas piores adversidades (Guedes & Gaudêncio, 2012; Guevara & Dib, 2005).

Também para De Klerk (2005), a falta de sentido tem sido constantemente mostrada para correlacionar-se com a falta de bem estar psicológico e a presença de psicopatologias e, por considerar tais aportes teóricos como importantes bases de estudo, o presente artigo tem como objetivo principal fazer uma reflexão acerca da relação do sentido de vida e a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT). De forma mais enfática, este artigo se vale dos conceitos da Logoteoria de Viktor Frankl como principal recorte da fundamentação teórica e como fonte condutora aos componentes do universo de possibilidades voltadas ao alcance da excelência em qualidade de vida no ambiente laboral.

Por meio dessas reflexões, faz-se uma associação dos possíveis efeitos da busca de sentido segundo a Logoteoria de Viktor Frankl, considerando alguns conceitos básicos, principalmente os referentes à postura resiliente dos trabalhadores no enfrentamento das dificuldades apresentadas no contexto laboral para o atingimento de seu bem estar psicológico e qualidade de vida no ambiente produtivo.

Logo, este trabalho coaduna-se com Ferreira (2008, pp.83-99) na perspectiva de que a QVT:

Se apoie em uma abordagem de natureza preventiva, cooperativa com outras ciências do trabalho e seus especialistas e, sobretudo, em uma concepção ontológica do sentido do trabalho que resgate o seu papel humanizador no âmbito das organizações. (Ferreira, 2008, p.97).

Assim, considera-se pertinente resgatar as contribuições de Viktor Frankl e sua Logoteoria para o contexto organizacional, uma vez que tem como principal premissa a busca de sentido da vida, não importando a circunstância nem o espaço físico ou de tempo.

Em coerência aos seus objetivos, o presente artigo está composto, primeiramente, por uma descrição dos referenciais teóricos que compõem o alicerce deste trabalho. São detalhamentos acerca da Logoteoria e Qualidade de Vida no Trabalho que auxiliam na compreensão das abordagens e metodologias, bem como no entendimento da evolução histórica de ambas, identificando características situacionais e posicionamentos teóricos basilares de cada uma. Em um segundo momento, busca-se promover a consonância entre a demanda da QVT nos dias hodiernos e a Logoteoria, procurando atrelar possíveis soluções e contribuições da teoria frankliana ao contexto da qualidade de vida do trabalhador.

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