O sentido da vida e a dignidade humana

Por Viktor E. Frankl.

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1ª palestra do Prof. Dr. Viktor Frankl no I Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial, Porto Alegre, 1985.  In verbis.

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Magnífico Reitor, Senhoras e Senhores:

[dc]L[/dc]ogoterapia é a terapia que se faz baseada no sentido da vida, a qual também poderíamos definir como a psicoterapia centrada no sentido. É legítimo indagar-se:

– Até que ponto a Logoterapia deve ser considerada importante nos dias de hoje? Formularia a resposta nestes termos: uma pessoa normal não sente, de regra, o próprio coração não se dá conta do pulsar desse órgão, a não ser em caso de enfermidade. Só a percepção da palpitação, da arritmia, de extrassístoles vai fazer com que o sintoma seja percebido de modo palpável e presente. Algo idêntico ocorre com o problema do sentido da vida. Só percebemos sua existência na medida em que nos deparamos com a sua falta.

O problema ou o sentimento da “falta de sentido” é amplo e universal. Em livro recente, um professor holandês da Universidade de Stanford, Califórnia, Estados Unidos, apresenta provas estatísticas de que 30% dos pacientes que freqüentam o ambulatório psiquiátrico têm problemas relacionados com a falta de sentido.

É interessante registrar que li, mais tarde, em um semanário de Viena, a muitas milhas de distância daquela fonte, outro dado estatístico demonstrando que casos da mesma ordem atingem um percentual de 29%. Há trinta anos já descrevia eu, esse fenômeno, chamando-o de “vazio existencial”.

Os dois principais sintomas que podem ser determinados como indicadores são a apatia e o não saber o que fazer. O primeiro é a perda de interesse pelo mundo. A apatia é uma falta de iniciativa, ou melhor, a falta de iniciativa para mudar alguma coisa no mundo. Em 1955, eu a descrevia pela primeira vez. Desde essa época, minha posição se difundiu amplamente. Atualmente, é observada, não apenas no mundo ocidental, mas também em países da assim chamada “Cortina de Ferro” como, por exemplo, Polônia e Rússia.

O Professor Adam Schadt, renomado filósofo que trabalhou nas universidades de Varsóvia e de Viena, em obra recentemente publicada, declara que aquilo que Dr. Frankl descreve como “vazio existencial” se observa também nos estados comunistas; não ficando circunscrito, portanto, ao mundo capitalista.

Não se trata, aqui, de mera afirmação teórica. Observa-se também na prática. Efetivamente, na reedição do meu livro “Homo Patiens”, mil exemplares se esgotaram em apenas três horas em Varsóvia. Significa isso enorme interesse de pessoas por tudo quanto se relaciona ao sentido da vida.

Há meses recebi carta do Instituto de Psicologia da Universidade de Moscou, em que me era solicitada literatura, em língua alemã ou inglesa, sobre Logoterapia. Nela, manifestava-se interesse pelo conhecimento do modo como encaramos o problema do sentido e como lidamos com ele. Idêntico fato se tem verificado em países em desenvolvimento, como estudos na África, nos quais nos deparamos com a crescente intensidade de indicadores de que o vazio existencial ou a percepção da falta de sentido ocorre com freqüência, em especial, entre os estudantes universitários, os quais sentem separados de suas tradições.

Já que estou falando em tradições, permitam-me ampliar essa questão, relacionada a esse fenômeno e às causas que o produzem.

Ao longo dos anos, passei a explicá-lo da seguinte maneira: em contraste com o animal, o homem, pela evolução, não mais é informado pelos impulsos e instintos sobre o que deve fazer. Mais tarde, acrescentei que o homem de hoje não mais sabe, ao contrário do que sucedia em épocas passadas, o que deve fazer, por intermédio da tradição. Parece que ele já não sabe, freqüentes vezes, o que deseja fazer, ou desconhece as conseqüências dos seus atos. Assim sendo, é levado a fazer o que as outras pessoas estão fazendo. Isto é conformismo. Ou, ao contrário, só faz o que os outros querem que ele faça. Isso é totalitarismo.

Nos países altamente industrializados, ocorre ainda outro fenômeno. As sociedades industriais procuram a satisfação de todas as necessidades do homem. A chamada sociedade de consumo não se limita a sugerir a satisfação de todas as necessidades materiais, mas criam-se novas necessidades, a fim de se manter o consumo. Carecem, todavia, de um sentido de vida. Eis aí os fatos e as causas do fenômeno da insatisfação, do ponto de vista da fenomenologia e etiologia.

Passemos, agora, à sintomatologia. Vou descrever o que ainda veremos em termos do que passei a chamar de “síndrome dos táxis”. Há anos fui convidado pelos estudantes da Universidade de Atlanta, Georgia, Estados Unidos, para dar uma palestra. Insistiram para que o tema da palestra fosse “Nova geração louca”. Tomei um táxi e o motorista perguntou-me:

– O que o senhor vai fazer na Universidade com este tempo ruim?

Respondi que ia dar uma conferência. Ele quis saber qual era o tema:

– É a nova geração louca.

Ele se pôs a rir e eu lhe disse:

– Por favor, não ria. Dirigirei o táxi em seu lugar e o senhor dará a conferência por mim. Acabo de chegar de Viena de avião e o senhor certamente saberá mais do que eu sobre os jovens daqui. Então, por favor, responda-me esta pergunta: A nova geração está louca?

A resposta veio com a rapidez de um disparo:

– É evidente que são loucos. Eles ingerem drogas, suicidam-se e matam uns aos outros.

Eu só tive de traduzir isso em linguagem mais complexa, mais científica. Limitei-me, aí, apenas a enunciar: agressividade, vício em drogas e depressão. Soa bem!

É importante lembrarmos indicações que provam a falta de sentido da vida. Relativamente ao vício, os logoterapeutas não têm sido os únicos a fazerem pesquisas estatísticas. Um psiquiatra de Manhattan, Nova York, Estados Unidos, que não era logoterapeuta, também fez pesquisa e publicou um artigo, no qual sustenta que, dos jovens entregues ao uso de drogas – adivinhem a porcentagem – 100% não tinham encontrado sentido para sua vida.

Nós, médicos, muitas vezes falamos de um tipo de diagnóstico por meio do qual descobrimos a causa de uma doença pela remoção da droga causadora da doença.

As mesmas observações são válidas para o segundo dos sintomas da “síndrome do táxi”, que é a agressividade.

A socióloga americana Carolyn Wood introduziu certa vez, disfarçadamente, alguns psicólogos em um acampamento de escoteiros. Os psicólogos, jovens como os demais, suscitaram uma briga interna, em que houve agressão recíproca entre dois grupos. A Profa. Sherif demonstrou que essa agressividade entre grupos apenas desapareceu de todo quando se deu o fato que vou referir. Desabou sobre o acampamento um forte temporal, e a condução que trazia os alimentos ficou atolada na lama. Mobilizaram-se então os escoteiros e, em um esforço comum em torno do mesmo objetivo de tirar a condução do atoleiro, apaziguaram-se os ânimos. Isso mostra que, somente quando há um objetivo comum, a agressividade cede. Seria interessante avaliar a importância desse fato em pesquisas sobre a paz e a prevenção da guerra. A humanidade deveria ter um objetivo, um sentido ou uma missão comum.

Mas vamos ao terceiro aspecto que seria a depressão ou o suicídio. Devemos advertir, preliminarmente, que há várias causas da depressão e do suicídio, entre ela as orgânicas. Serve como exemplo a depressão endógena que, originariamente, é causada fatores bioquímicos, os quais, de algum modo, se explicam pela hereditariedade. Em outras palavras, nem todos os casos de depressão e suicídio devem ser atribuídos a um sentimento de falta de sentido. Entretanto, mesmo quando o impulso ao suicídio não for por falta de sentido, talvez pudesse ser evitado se a pessoa tivesse consciência do sentido da vida.

Diria que nem todas as neuroses são noogênicas, mas mesmo assim, a Logoterapia pode fornecer alguma ajuda aos pacientes que sofrem de outras neuroses.

Insisto no fato de que o sentido da vida pode ser encontrado apesar do sofrimento, ou mesmo por meio do sofrimento, se necessário for.

Só o sofrimento inevitável contém o sentido da vida; é incomparável a qualquer outro. Sendo evitável, deve ser removida a causa que o provoca. Em se tratando, por exemplo, de um câncer operável, que possa ser removido por intervenção cirúrgica; a intervenção se impõe. Se alguém tiver uma psicose, os surtos psicóticos hão de ser controlados por meio do uso de medicação. Se é de fobia ou neurose obsessiva que se está tratando, a cura se faz mediante psicoterapia. Se as causas são de natureza social, devem ser removidas, por meio de ação política. Somente se as causas do sofrimento forem inarredáveis, o qual não  possa ser evitado, então resta o heroísmo e não o masoquismo.

Não sei se me faço entender. A prioridade é a mudança, uma atitude ativa em relação ao sofrimento. A prioridade é a ação, mas a superioridade que leva ao heroísmo é carregar a cruz com coragem. Mas isso só é possível nos casos em que não se pode modificar de maneira alguma a situação.

Fiquei muito impressionado com a diferença entre heroísmo e masoquismo expressa em uma entrevista dada pelo cardiologista Marik Edelman que foi o segundo líder do “Levante do Gueto de Varsóvia”. Um repórter, após algumas palavras, disse: “Isso que o senhor fez é realmente heroísmo”. E sabem qual foi a reação do Doutor Edelman? Eu não diria que o heroísmo é simplesmente isso: tomar de uma arma e dar tiros. Mas se a SS (Gestapo) o prende e o leva a uma câmara de gás para a execução e nada mais pode ser feito, será heroísmo seguir o caminho de cabeça erguida, com dignidade. Em outras palavras, pela glória de Deus!

Senhoras e senhores, vou concluir esta apresentação esquemática sobre como encontrar um sentido da vida, ainda que no sofrimento, e até mesmo na morte, quero dizer, mesmo in extremis, in ultimis.

Não se trata de algo que possa apenas ser comprovado cientificamente. Isso é testemunhado todos os dias pelos médicos. Não é uma pregação, nem é um ensino. É uma aprendizagem. Os médicos que vivem tal situação a vivenciam diariamente, no trato com seus pacientes, não em teoria, mas na prática.

Por um quarto de século, tive a honra de ser diretor de um departamento de Neurologia do Hospital Geral de Viena. Lá me foi dado ver e observar pessoas jovens, pacientes, lidarem de maneira admirável com o seu destino e com a situação terrível de ficarem, de uma semana para outra, totalmente paralisados. Imaginem a seguinte situação: uma paciente de vinte e dois anos, que levou um tiro na nuca, não pode fazer nada a não ser utilizando-se de instrumento na boca para datilografar. A Dra. Patrícia Stark, do Alabama, Estados Unidos, escreveu sobre esta jovem. Acamada, sem poder se mexer, a não ser com a cabeça, ela sabe, não obstante isso, com clareza, o propósito de sua vida. Lê jornais, vê televisão e mantém-se informada sobre pessoas com problemas, para as quais datilografa, com o uso da boca, mensagens de conforto.

Ao cabo dessas considerações, passemos para o problema relacionado com a seguinte pergunta: Se a vida tem sentido, o que dizer da morte? Haverá algum sentido na morte? Ao contrário de tirar o sentido da vida, a morte dá sentido às nossas vidas. Se fôssemos imortais, poderíamos pospor tudo para a semana que vem, para o mês que vem, para o século que vem. É sob a pressão de transitoriedade, sob a ameaça da morte e na consciência de nossa finitude que usamos cada hora para fazer aquilo a que fomos destinados.

Temos de nos dar conta de todas as potencialidades que a vida nos oferece. E, uma vez que as tenhamos visualizado, devemos persegui-las, agindo assim constantemente. Tudo quanto possuímos do nosso passado, nós já o temos conosco. Ninguém no-lo pode tirar, nem será aniquilado. Nada é irremediavelmente perdido. Tudo é guardado, depositado. Não raro só consideramos as dificuldades da nossa transitoriedade e esquecemos todos os grãos da semente do passado que existe e precedem a colheita.

Não há nenhuma justificativa para os jovens sentirem pena dos velhos. Ao contrário, deveriam invejá-los. Certamente, os jovens têm possibilidades de futuro, mas os velhos têm realidades do passado e isso é mais valioso que as possibilidades de futuro.

Lembrem-se de que sustentei a existência de um potencial incondicionado de sentido da vida, que é um valor incondicional da pessoa humana.

Um psicótico, um doente incurável, uma pessoa senil podem deixar de ser úteis para a sociedade. Eles ainda podem manter a sua dignidade como homens, porque seu valor incondicional não se encontra apenas no presente, mas naquilo que ele é, acrescido ao que já realizou. Para a sociedade, a utilidade não exaure a história. Aqui cabe perguntar: a sociedade atual é orientada para ganhos, para as aquisições, na realidade está desumanizada e desvalorizando o homem?

Em valorizar somente aquilo que serve à sociedade, como alguns adlerianos sabem fazer, há inconseqüência em não se aceitar a eutanásia usada por Adolf Hitler.

Senhoras e senhores: sou um psiquiatra que vem de Viena. Certamente se esperaria que, ao iniciar minha palestra, fizesse eu, como qualquer analista, uma citação de Freud. Vou fazê-la no fim da palestra, ao invés de tê-la feito no início, invertendo o procedimento costumeiro. Freud certa vez escreveu: “Vamos tentar expor as diferentes pessoas uniformemente à fome. Com o aumento da pressão pela fome, todas as diferenças individuais vão desaparecer. E, ao invés das diferenças individuais, vai haver a expressão uniforme desta urgência e desta necessidade não satisfeita”.

Graças a Deus, Freud não teve de passar pela experiência de um campo de concentração. Seus pacientes encontravam-se confortavelmente deitados em um divã de veludo, ao estilo vitoriano da época. Não estavam deitados em Auschwitz, em Dachau. Lá, nenhuma das características pessoais se apagou. Até mesmo as pessoas manifestaram mais claramente as suas diferenças. Revelaram-se como porcos e como santos. Poucos anos atrás, eu hesitava em usar em minhas manifestações o termo “santo”. Desde que o Reverendo Maximiliano Kolbe foi canonizado, após sacrificar sua vida em favor de outros, eu me sinto à vontade para empregar a palavra “santo”.

Não me acusem de simplificar demais a questão e usar alguns exemplos extremos. A última frase do livro de Benedictus de Spinosa é a seguinte: “Tudo que é difícil e raro não só é difícil de obter, mas também muito raro de ser encontrado”.

Mesmo assim, não há necessidade de se falar em santos. Basta falar-se em pessoas decentes. Eu digo que elas são, e sempre serão, a minoria. Mas não é um desafio unir-se a essa minoria? O mundo está em situação difícil e se tornará ainda pior, a não ser que cada um de nós tente fazer o melhor possível.

Desde Auschwitz, sabemos do que o ser humano é capaz.

Desde Hiroshima, sabemos o que pode acontecer.

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