O amor entre jovens em tempos de ficar: correlatos existenciais e demográficos

Por Thiago Antônio Avellar de Aquino, Valdiney Veloso Gouveia, Karizy Soany Costa Patrício, Maria Gorete Sarmento da Silva, Jacqueline Lisete de Macedo Bezerra, Valdemir Bezerra de Souza Júnior, Waldemar Moreira de Oliveira Neto. Universidade Federal da Paraíba.adolescente, afeição, amor, ficar, logoterapia, viktor frankl, pdf

“Não se conhece senão o que se ama, e o conhecimento será tanto mais compreensível e profundo quanto mais fortes e vivos forem o amor e a paixão” (Goethe).

[dc]O[/dc] amor é um tema cantado entre os poetas e filósofos desde a Antiguidade até os tempos atuais, e constitui verdadeira fonte de inspiração para o ser humano. Inicialmente, o ideário do amor foi considerado um requisito imprescindível a uma disposição de graça e bem. O amor verdadeiro seria uma via pela qual o homem alcançaria a perfeição, a justiça e o bem; já o amor corporal era visto com maus olhos por não engrandecer a alma humana. Essa era uma temática de tamanho interesse que Platão relata um encontro entre vários filósofos na Grécia, dentre eles, Sócrates, cuja finalidade era debater as concepções sobre o amor. Em O Banquete, Aristófanes descreve o amor como o responsável pela união de duas metades separadas desde a origem do ser humano. Os gregos acreditavam que, nos primórdios dos tempos, existiam três gêneros: o masculino, o feminino e o andrógino. Tais seres especiais tinham forma esférica, com quatro mãos e quatro pés, mas apenas um cérebro. Ao tentarem atacar o Olimpo, Zeus os castiga cortando-os ao meio, assim sentiram-se fracos e numerosos, sempre à procura de seu par, e quando as duas metades se encontravam, não se largavam por medo de se perderem novamente. Essa é uma primeira referência da necessidade de o ser humano buscar complemento no outro, entendendo-se que essa união apenas ocorreria por intermédio da força do amor (Platão, 1991).

No decorrer dos tempos, o amor sofreu ressignificações e revalorizações. Assim, constata-se que, na modernidade, existe um hiato entre o amor e o sexo. Nesse contexto, ganha espaço o ficar, que não é algo exclusivo dos jovens de hoje, mas um tipo de relacionamento afetivo que ocorre com a ausência de responsabilidade e de compromisso com o parceiro, visto que, em determinados instantes, não se estabelece qualquer vínculo emocional entre os ficantes. O ficar, para alguns, é a possibilidade de encontrar alguém para um futuro namoro, mas, para outros, pode ser apenas a possibilidade de estar com maior número de parceiros bem como uma busca de satisfação momentânea (Caramaschi, 2007).

Portanto, amor e ficar são elementos comuns no dia a dia, mas, qual seria mesmo a diferenciação entre ambos ou como, por outro lado, se relacionariam? Embora essa questão possa preocupar educadores, psicólogos e pais, raramente tem sido tratada de forma sistemática; são ainda escassos os estudos a respeito, principalmente os que têm em conta uma abordagem mais quantitativa, métrica. Nesse sentido, justifica-se o presente estudo. Seu objetivo principal é conhecer como o amor e o ficar se relacionam, mas também como esses sentimentos ou modos de se relacionar podem ser pautados no sentido da vida e no vazio existencial experimentado pelas pessoas. Desse modo, demanda-se compreender inicialmente o marco teórico do modelo que fundamenta o presente estudo, isto é, a análise existencial de Viktor Frankl (1905-1997), e, posteriormente, os aspectos do amor e do ficar.

Análise existencial de Viktor Frankl

A análise existencial, também conhecida como logoterapia, compreende um sistema teórico e prático dentro da Psicologia criado pelo psiquiatra e neurologista vienense Viktor Frankl (1905-1997). É uma linha existencialhumanista que busca superar o psicologismo reducionista que, por vezes, está no discurso de psicólogos. É conhecida ainda como a terceira escola vienense de psicoterapia, sendo a psicanálise freudiana a primeira e a psicologia individual, de Adler (1931/1998), a segunda. Freud descobriu no homem a vontade de prazer, Adler, a vontade de poder, e Frankl contemplou a sua vontade de sentido (Lukas, 1989).

O termo logos, do grego, significa sentido. Desse modo, a logoterapia concentra-se no sentido da existência humana e na busca do indivíduo por esse sentido, o que lhe causa uma dose saudável de tensão na qual ele se encontra entre dois polos (Frankl, 1994): um que indica o que a pessoa é, suas realizações (o ser) e, no outro, o sentido a ser cumprido (o dever ser). Esse autor percebe o homem como um ser que deseja encontrar sentido para a vida, isto é, que está destinado a descobrir o sentido de sua vida, e que pode adoecer psiquicamente se for frustrado nessa busca. A frustração dessa necessidade é um sintoma do tempo presente; o sofrimento e a falta de sentido configuram o vazio existencial que muitos experimentam. Dependendo do grau de vazio existencial, experimentam-se sintomas diversos, como depressão, irritabilidade e consumo de drogas.

A logoterapia, ao contrário da Psicologia humanista, não reconhece a autorrealização como meta última da existência humana, mas contrapõe a ela a autotranscedência do homem, que indica que o ser humano deve estar voltado para algo ou para alguém que não seja ele mesmo; dessa forma, considera o homem um ser agente, que tem o poder de agir, evocando a liberdade da vontade de sentido. O conceito de homem e de mundo, segundo a logoterapia, está apoiado em três aspectos principais (Lukas, 1989):

1) Liberdade da vontade. É dada ao homem potencialmente. Entende-se que o homem não está livre de condições, mas é livre para tomar qualquer posição que lhe seja mais condizente mediante as situações que o cercam, isto é, o ser humano é portador de uma liberdade condicionada;

2) Vontade de sentido. É concebida como a motivação primária do ser humano, uma capacidade própria do homem que surge a partir da tomada de consciência da finitude humana, e

3) Sentido da vida. O ser humano precisa buscar um sentido, um para quê viver, o qual deve ser um fim em si mesmo. A felicidade é a consequência da realização desse sentido que está no mundo, que é constituído de valores e de sentidos. Os valores podem ser criativos, que compõem tudo o que se cria e o que se deixa no mundo, vivenciais, que são as experiências de convívio com outras pessoas, e atitudinais, que ocorrem no sofrimento inevitável e fazem com que o indivíduo se modifique interiormente.

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