Notas sobre a história oficial do transtorno do déficit de atenção/hiperatividade TDAH

Por Luciana Vieira Caliman. Universidade Federal do Espírito Santo.

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[dc]U[/dc]ma pletora de sintomas diferenciados, desde suas primeiras descrições”, essa é uma das críticas de Rafalovich (2002, p. 14) ao diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). O destaque em itálico é importante. Quais seriam as primeiras descrições do TDAH? Supostamente, essa pergunta nos levaria à investigação do transtorno nas classificações psiquiátricas. Nelas, seria preciso investigar os quadros patológicos que se aproximaram do diagnóstico recente. Após identificá-los, analisaríamos suas explicações etiológicas e suas descrições sintomatológicas. Encontraríamos um aspecto em comum forte o suficiente para agrupá-los em uma mesma história diagnóstica. No cenário mais recente, situaríamos o TDAH descrito no DSM IV-R (2000) e a síndrome hipercinética do cID 10 (1992). Mas, quando lembramos que o diagnóstico atual é composto pela pletora de sintomas que Rafalovich comenta, a tarefa se complica. Não seria difícil encontrar vários quadros patológicos que incluíssem um defeito da atenção, da hiperatividade e da impulsividade.

Além disso, já que não é necessário que todos os sintomas estejam presentes para que o diagnóstico do TDAH seja definido, sua história poderia ser orientada pela predominância de um dos seus três sintomas centrais. Ao longo da história médica, a hiperatividade, a impulsividade e a desatenção criaram entre si laços diversos. No interior da história oficial que as vincula e as chama de TDAH, elas alternaram entre si o lugar de maior importância na definição da classificação. Em certos momentos, o aspecto que mais caracterizava o quadro era a hiperatividade que, em seguida, foi destronado pela desatenção que, também em seguida, foi transformado em um aspecto menor das funções executivas. Houve um tempo em que nenhum deles era visto como o aspecto definidor do transtorno.Considerando ainda que cada um dos três sintomas se desdobra em quadros mais específicos, caso estejamos falando da menina ou do menino, da criança ou do adulto com TDAH, a complicação se agrava. Poderíamos escrever a história da criança com TDAH, e, nesse caso, as descrições patológicas seriam buscadas no universo da psiquiatria, da neurologia, da Psicologia infantil e também da psicopedagogia. A relação estabelecida entre a criança com TDAH e o universo escolar é sustentada pela própria descrição do transtorno. Afirma-se que os sintomas da desatenção, da hiperatividade e da impulsividade se manifestam principalmente no ambiente da escola. Esse não é um dado insignificante, mesmo para a história oficial da desordem. Nela, os quadros precursores do TDAH estão relacionados a problemas escolares. O discurso crítico considera esse dado e analisa a história do TDAH como aquela do controle e da medicalização infantil (Schrag & Divoky, 1975; Werner, 2001). Alguns a descrevem como um capítulo importante da história do poder institucional exercido sobre a criança indisciplinada (conrad, 1975, 1976). Rafalovich (2002) inicia a história do TDAH com o discurso médico da criança idiota e do imbecil moral da segunda metade do século XIX. Ainda no universo infantil, Barbetti (2003) analisa a construção da criança hiperativa em sua relação com a história da eletricidade a partir da segunda metade do século XIX, e Dupanloup (2004) também retorna ao século XIX para falar da criança hiperativa inapta e instável.

Deixando de lado o universo infantil, a nossa história poderia ser também aquela do adolescente TDAH. Nesse caso, ela teria que considerar o discurso e a prática médica em torno da delinqüência e da adolescência desviante. Por outro lado, seria possível construir a história do adulto TDAH, já que, desde a década de 80, ele também faz parte da categoria diagnóstica antes considerada prioritariamente infantil. certamente, o percurso histórico analisado seria outro. Exagerando um pouco no argumento, nada impediria que a história do TDAH familiar fosse construída, já que agora também se diz que a desordem pode acometer toda a família. Há ainda os pesquisadores que vêem na descoberta e na utilização terapêutica das drogas estimulantes e nos interesses econômicos criados pelo seu comércio o aspecto central da constituição do diagnóstico. A maior parte deles concentra-se na história da farmacologia da Ritalina. Na literatura sobre a Ritalina, as análises mais citadas são as de Schrag e Divoky (1975), Diller (1998) e Degrandpre (2000). Essas análises foram e ainda são importantes para o debate sobre a história do TDAH.

Encontramos ainda os que, como Dumit (2000), acreditam que a validação do TDAH como um diagnóstico médico esteve e está intimamente vinculada à construção da legitimidade científica da neurologia e das tecnologias de imagem cerebral. O autor analisa o transtorno do déficit de atenção/ hiperatividade como uma das novas desordens sociomédicas ou desordens biomentais. Elas são patologias de forte repercussão legal, cujas imagens cerebrais exercem um papel importante em sua legitimação diagnóstica.

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