Mundo e sentido na obra de Viktor Frankl

Por Ivo Studart Pereira. Universidade Federal do Ceará.

[dc]N[/dc] uma época em que já não se consegue mais encontrar o sentido incriável, as pessoas passam a considerar o absurdo como a única coisa que podem criar por si mesmas. […] Fazemos um teatro do absurdo para podermos, pelo menos, embebedarmo-nos de falta de sentido. Porque esta, sim, pode ser fabricada; e a fabricamos ad nauseam (Frankl, 2003b, p. 47).

INTRODUÇÃO

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O psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl (1905-1997) é o fundador da chamada Logoterapia, escola psicológica de caráter fenomenológico, existencial e humanista, conhecida, também, como a “Psicoterapia do Sentido da Vida” ou, ainda, a Terceira Escola Vienense em Psicoterapia. A questão sobre o “sentido da vida” constitui um dos temas principais da produção intelectual de Frankl, desde a juventude até seus escritos mais maduros, de modo que acreditamos fazer-se pertinente uma abordagem mais acurada a respeito do problema.

Em nosso entendimento, a acepção do termo “sentido” constitui a pedra angular sobre a qual se alicerça a visão de mundo subjacente à Logoterapia. Deve-se, igualmente, frisar que interpretações equivocadas de tal vocábulo também vêm sendo fonte das mais diversas formas de apropriação indevida do sistema construído por Frankl e discípulos. Não raro, o mencionado conceito é tomado como pressuposto vago, o que tem viabilizado toda uma série de críticas infecundas e pouco embasadas. A própria polissemia do termo, utilizada nas mais diversas acepções (direcionamento, justificação, propósito, revelação, etc.), parece, também, tornar a questão ainda mais obscura. Recorreremos, no entanto, à própria letra de Frankl a fim de esclarecer o problema a que, ora, nos propusemos discutir.

A OBJETIVIDADE DO SENTIDO

Seguindo a tradição da ética material dos valores, iniciada por Max Scheler (1874-1928), Frankl procura assegurar, já num primeiro momento, a objetividade do sentido. Sua preocupação consiste em garantir, antes de tudo, uma salvaguarda teórica contra interpretações relativistas, convencionalistas ou céticas. Se fosse possível que dois homens se encontrassem sob uma mesma situação concreta na vida, o “órgão do sentido” – a consciência moral do ser humano (Gewissen) – apontaria para a mesma possibilidade de ação (Lukas, 1989, p. 43). Cabe, já aqui, fazer menção a uma das idéias através das quais a Logoterapia ficou conhecida como uma “revolução copernicana” na psicologia, através de uma máxima onipresente nos escritos de Frankl:

Em última análise, a pessoa não deveria perguntar qual o sentido da sua vida, mas antes deve reconhecer que é ela que está sendo indagada. Em suma, cada pessoa é questionada pela vida; e ela somente pode responder à vida respondendo por sua própria vida; à vida, ela somente pode responder sendo responsável. Assim, a logoterapia vê na responsabilidade (responsibleness) a essência propriamente dita da existência humana (Frankl, 1985, p. 98).

Isto é, não devo perguntar à vida, numa postura reflexiva e autocêntrica, o que ela quer de mim; eu é que me encontro, a cada instante, sendo indagado por ela, e cabe, apenas a mim, responder, realizando o sentido único de cada situação. Podemos conceber melhor essa “objetividade” do sentido, quando a compreendemos como uma herança de Scheler. Aliás, o próprio Frankl chegou a afirmar que a Logoterapia poderia ser entendida como uma “tentativa de aplicação das categorias de Max Scheler na psicoterapia”, na mesma medida em que comparava a relação entre os conceitos heideggerianos e a Daseinanalyse de Ludwig Binswanger (Frankl, 1988, p. 10). Ora, discípulo direto de Edmund Husserl (1859-1938), Scheler reformulou as idéias de seu mestre em vários pontos, e o principal deles parece ser a orientação realista que conferiu à fenomenologia, contrapondo-se ao idealismo original de tal corrente.

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