Logoterapia: uma visão da psicoterapia

Por Paulo Kroeff. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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[dc]V[/dc]iktor Frankl, o criador da logoterapia, aceitou a indicação de outros autores de situar sua teoria dentro da psicologia humanista ou da psiquiatria existencial (Frankl, 1983). Contudo, apesar de não negar esta maior identificação, não deixou de marcar também diferenças com essas orientações. Um exemplo disso, com relação ao humanismo, é a crítica que Frankl faz quanto à utilização do termo auto-realização, o qual tenderia a enfatizar demasiadamente a possibilidade de a pessoa se realizar em si mesma. Para a logoterapia, esta realização só ocorre após o sentido de vida ser concretizado, o que é possível quando o indivíduo sai de si, ao encontro de alguém ou de algo que está no mundo. Por isto, Frankl prefere falar de autotranscendência, como pré-requisito para a realização. Outra diferença, agora com os existencialistas, é com relação ao sentido da vida. Alguns afirmam que a vida carece de sentido, sendo em si mesma um absurdo que, para ser suportado, necessita que se “invente” um sentido para a vida. Já Frankl afirma que a vida sempre tem sentido, o qual está no mundo, sendo simplesmente necessário que este sentido seja “descoberto” pela pessoa.

Frankl também assinalou diferenças com a psicanálise e a psicologia individual. Ele não desconsiderava o que essas duas escolas pretendiam levar à consciência do homem – os instintos e a responsabilidade com os laços sociais, respectivamente -, mas alertava também para a necessidade de trazer à consciência o sentido e os valores:

Enquanto a psicanálise vê o neurótico só de um lado, como dominado pelo princípio do prazer, ou seja, a vontade orientada ao prazer, e a psicologia individual como determinado pelo afã de prestígio, ou seja, a vontade de poder, a nova psicoterapia vê também a vontade orientada ao sentido. (Frankl, 1991b, p. 120).

Conscientizando-se a pessoa da questão do sentido, o qual é realizado pela concretização de valores, cria-se uma responsabilidade para o ser humano, o que Frankl marcava como um dever-ser (Frankl, 1978, p. 198). Outra diferença entre as três escolas, também se pode ver assinalado quando Frankl cita Hofstatter: “cada uma das três entidades psíquicas encontrou seu advogado entre os terapeutas – o id em Freud, o ego em Adler, o superego em C. G. Jung, R. Allers, e V. Frankl.” (Frankl, 1978, p. 199). Ao comentar esta citação, na mesma página, Frankl considera- a válida, abstraindo-se o jargão psicanalítico. E mais ainda, ao trazer para a psicoterapia, através da logoterapia e da análise existencial, a reflexão sobre a liberdade e a responsabilidade, traz para este campo um poder-ser do ser humano, pois a liberdade lhe abre possibilidades que podem ou não ser concretizadas.

Já em 1950, na conferência Sobre Psicoterapia, para neurologistas e psiquiatras austríacos, Frankl assinalava a necessidade de agregar à visão de homem uma dimensão mais além das dimensões física e psíquica, lembrando que apesar de o homem ser uma unidade físico-psíquica “esta unidade não constitui o homem total; precisamente o espiritual é que institui, funda e garante a totalidade do homem” (Frankl, 1991b, p. 117). Frankl estava advogando pelas propostas de Max Scheler e sua teoria dos valores, em que é reservado um lugar especial ao homem no universo (Scheler, 1984). Frankl admite que “a logoterapia é o resultado de uma aplicação dos conceitos de Max Scheler à psicoterapia” (Frankl, 1970, p. 10).

A dimensão espiritual não era ignorada por Freud, apesar de não ser entendida e aceita com a amplitude e a singularidade com que Frankl o fazia. Assinala Frankl: “Freud foi suficientemente genial para ser consciente das limitações do seu sistema, como quando confessou a Ludwig Binswanger que se havia ‘sempre limitado’, em seu caso, ‘ao andar térreo e ao porão do edifício’” (Frankl, 2001, p. 32). Escusado dizer o que Frankl assinalou à exaustão, que espiritual não significa religioso, chegando a propugnar um outro nome – dimensão nooética – para sua proposta antropológica, buscando evitar esta confusão conceitual.

Apesar de marcar suas divergências com a Psicanálise e a Psicologia Individual, não se deve pensar que Frankl esquecia as contribuições destas grandes escolas. Veja-se o que ele afirma nas primeiras linhas, do primeiro parágrafo, de seu primeiro livro escrito, publicado em 1946:

Como falar de psicoterapia sem citar os nomes de um Freud e um Adler? Seria impossível, com efeito, tratar de um problema de psicoterapia sem tomar como ponto de partida a psicanálise e a psicologia individual e sem fazer constante referência a eles. Pois não é em vão que se trata dos dois únicos grandes sistemas no campo psicoterápico. Não é possível apagar mentalmente da história da psicoterapia a obra de seus criadores, obra que podemos qualificar de histórica no melhor sentido da palavra, porém também no sentido do que já passou à história, ou seja, do que foi superado e ultrapassado pelo curso ulterior dos acontecimentos (Frankl, 1967, p. 11).

Vemos que Frankl presta, nas linhas acima, uma grande homenagem a seus primeiros mestres, mas não deixa de assinalar a necessidade de prosseguir a caminhada. Sem tirar o mérito das contribuições de Freud e Adler, ele segue sua homenagem, mas lembra também a obrigação de ir além disto ao citar, nesta mesma página, a atitude de Stekel com relação a Freud, de que “um anão sobre os ombros de um gigante pode dominar um campo visual maior que o gigante mesmo” (Frankl, 1967, p. 11). Ao referir-se a estas importantes contribuições dizia que “temos o dever de voltar o olhar para elas”, ressaltando, contudo, que “também temos o direito de delas nos afastarmos” (Frankl, 1991b, p. 116).

Frankl marca as limitações que percebe nas visões de ser humano destes grandes mestres:

(…) a neurose, para a psicanálise, representa em última instância uma limitação do eu enquanto consciência, e, para a psicologia individual, uma limitação do eu enquanto responsabilidade (…). Tanto a psicanálise como a psicologia individual vêem, portanto, somente um dos dois lados do ser-homem, um dos fatores da existência humana (Frankl, 1967, pp. 12-13).

Nesta mesma passagem, Frankl assinala o que já era, e continuaria a ser, a base de seu trabalho futuro:

(…) a consciência e a responsabilidade constituem precisamente os dois fatos fundamentais da existência humana. O qual, traduzido numa forma antropológica fundamental, podia expressar-se assim: ser-homem equivale a ser-consciente-e-responsável (…) são os dois aspectos juntos e combinados que oferecem a imagem total e verdadeira do homem (Frankl, 1967, p. 13).

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