Logoterapia e superação de evento traumático em uma criança

Por Paulo Kroeff. Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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[dc]O[/dc] que se apresenta a seguir são algumas considerações sobre Logoterapia e sua adaptação para o atendimento psicológico de uma criança que estava tendo dificuldades para superar um episódio de violência que sofrera. Buscou-se neste atendimento seguir uma orientação Logoterápica, apesar de se valer também de técnicas de outra escola.

Como é sabido por quem está familiarizado com a Logoterapia de Viktor E. Frankl, atuar segundo esta orientação psicoterapêutica implica em considerar que a vida sempre tem sentido, mesmo nas circunstâncias mais difíceis e que o ser humano tem como motivação básica alcançar sentidos e que os mesmos são atingidos pela realização de valores. Pressupõe-se que o ser humano é livre e, portanto, responsável, mesmo que sua liberdade sofra limitações. Afirma-se que o ser humano apresenta duas características essenciais: é auto-transcendente, ou seja, em sua busca de sentido, está orientado para algo ou alguém fora de si mesmo, já que o sentido está no mundo, e que é capaz de auto-distanciamento, uma capacidade que lhe permite não ser engolfado completamente pelas circunstâncias de sua existência, permitindo-lhe tomar posição ante estas circunstâncias e suas interferências em sua busca por realizar sentidos (Frankl, 1991).

Sabemos que somente em “casos de neurose noogênica, a logoterapia é uma terapia específica” (Frankl, 1970, p. 99) e que ao se lidare com neuroses psicogênicas ou outros desajustamentos “a logoterapia não pode ser oposta à psicoterapia mas representa, ela mesma, uma dentre as escolas de psicoterapia.” (Frankl, 1970, p. 99). Exatamente por Frankl reconhecer que a Logoterapia não é uma panacéia, que é grande a complexidade e diversidade das situações terapêuticas, e que há uma riqueza técnica em cada escola terapêutica, não há “objeção em combiná-la com outros métodos.” (Frankl, 1970, p. 110). Frankl afirma, inclusive, que “deve-se dar grande importância a um ecletismo” (Frankl, 1976, p. XIII), chegando até a declarar que “seria inconcebível não atuar ecleticamente na psicoterapia” (Frankl, 1978, p. 200). Também esta é a posição de Elisabeth Lukas, ao declarar que “o bom da logoterapia é que suas formas de tratamento, inerentes ao sistema, podem combinar-se perfeitamente com outras modalidades terapêuticas.” (Lukas, s/d, p. 85). Ressaltando essa disposição da Logoterapia para combinar-se com outras linhas psicoterapêuticas, Guilhermo Pareja Herrera, psicólogo peruano radicado no México, em uma palestra, disse que quem lhe havia ensinado o que fazer havia sido Frankl; mas quem lhe ensinara como fazer havia sido Carl Rogers (SOBRAL, 1985).

Em seus escritos, Frankl praticamente somente apresenta casos de pessoas adultas, referindo formas de atuar mais adequadas a esta faixa etária e às temáticas do vazio existencial e da busca de sentido. Muitos terapeutas relatam adaptações da Logoterapia para o trabalho com crianças, dentre os quais Lukas (s/d; 1986) e Riveros de Carbone (1984). É o que se procurou fazer no caso que se relata a seguir, com intervenções simples, mas que se mostraram bastante efetivas.

O Atendimento Psicológico

Uma mãe buscou atendimento psicológico para o filho, um menino de 10 anos, que havia sido assaltado por dois jovens adolescentes, não muito maiores que ele, no caminho para a escola. Sob a ameaça de uma faca, ele tivera que entregar-lhes seu tênis. A partir deste episódio de violência, este menino começou a apresentar resistência e, por fim, recusa em ir à escola. Não queria mais sair de casa, nem para ir à escolinha de futebol, nem para brincar com os amigos, atividades que antes apreciava bastante. Mostrava-se triste, temeroso, desinteressado de qualquer atividade, a não ser assistir televisão. Surgiram também dificuldades para dormir.

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