Logoterapia e o sentido do sofrimento: convergências nas dimensões espiritual e religiosa

Por Neir Moreira e Adriano Holanda. Universidade Federal do Paraná.

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[dc]A[/dc] Logoterapia é uma escola psicológica de caráter multifacetado – de cunho fenomenológico, existencial, humanista e teísta –, conhecida também como a “Psicoterapia do Sentido da Vida” ou, ainda, a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia. A teoria de Viktor Emil Frankl (1905-1997) concebe uma visão de homem distinta das demais concepções psicológicas de seu tempo ao propor a compreensão da existência mediante fenômenos especificamente humanos e a identificação de sua dimensão noética ou espiritual, a qual pela sua dinâmica própria pode despertar a vivência da religiosidade.

Se Copérnico ousou retirar a Terra do centro das órbitas planetárias e Kant ousou retirar o objeto do conhecimento do centro mesmo da epistemologia, pode-se afirmar que Frankl livrou a psicoterapia do introspectivismo, desconstruindo a noção de uma autorrealização solipsista do centro das motivações primárias do ser humano (Pereira, 2007). A questão não deveria ser “o que eu ainda devo esperar da vida”, porém, “o que a vida espera de mim”. Kierkegaard utiliza a seguinte metáfora para relacionar o esforço humano na busca da felicidade: a porta da felicidade abre-se “para fora”, ou seja, ela fecha-se exatamente para quem tenta empurrá-la para dentro; já Frankl, a partir de sua experiência nos campos de concentração, foi mais longe, apontando para uma dimensão que só Deus pode mensurar, na fidelidade ao sentido da existência, à missão do ser humano sobre a face da terra. “Não se trata da busca de um, mas da busca do sentido” (Gomes, 1988, p. 31).

Para a logoterapia “o método fenomenológico é o que deve ser tomado, pois o fenômeno não é a aparência, e sim, a manifestação ou revelação de que há a coisa mesma ou o ser em si, sendo o abrir-se e o manifestar-se da própria realidade vivida pelo sujeito” (Pettengill & Angelo, 2000, p. 92).

A logoterapia se caracteriza pela exploração da experiência imediata com base na motivação humana para a liberdade e para o encontro do sentido de vida. Ela inaugura também um novo campo, o qual Frankl define como uma psicoterapia orientada para o espírito. A rigor, para Frankl, a logoterapia origina-se “do” espiritual, enquanto a análise existencial se dirige “para” o espiritual. A análise existencial focaliza a luta do homem pelo sentido – não apenas o do sofrimento,mas também o sentido da vida (Frankl, 1978). A logoteoria, por sua vez, é a fundamentação teórica da logoterapia com a finalidade de proporcionar o saber necessário para uma leitura de mundo a partir dos seus conceitos fundamentais.

A vontade de sentido

Viktor Frankl reconheceu – especialmente na psicanálise freudiana e na psicologia individual adleriana, o mesmo problema – a preocupação com um equilíbrio interno, numa perene busca pela cessação de tensão, como objetivo maior da gratificação dos instintos e da satisfação das necessidades, constituindo-se, assim, o fim de toda atividade que envolva a vida. (Pereira, 2007, p. 127)

O que de fato impulsiona o homem não é nem a vontade de poder (como aponta Adler), nem a vontade de prazer (como em Freud), mas sim o que Frankl chama de vontade de sentido.

Para Frankl (1991), o homem só se torna homem e só é completamente ele mesmo quando fica absorvido pela dedicação a uma tarefa, quando se esquece de si mesmo a serviço de uma causa, ou no amor a uma pessoa. É como o olho, que só pode cumprir sua função de ver o mundo enquanto não vê a si próprio. O sentido tem um caráter objetivo de exigência e está no mundo, não no sujeito que o experiencia.

Na logoterapia, a vontade de sentido é orientada para uma realização de sentido, a qual provê uma razão para a felicidade; isto é, “com uma razão para ser feliz, a felicidade surge automaticamente como efeito colateral” (Pereira, 2007, p. 129). Nesse contexto, as noções de “felicidade”, de “prazer” ou de “poder”, como objetos da busca última do homem, são negadas. E essa busca patológica de uma felicidade incondicional foi denominada por Frankl como “princípio autoanulativo”, segundo o qual quanto mais o homem persegue uma ideia acabada de felicidade, prazer ou sucesso, em detrimento da realização de sentido, mais ele se distanciará desse objetivo. Para Frankl, não se deve buscar a felicidade, pois à medida que houver uma razão para ela, então ela decorrerá espontânea e automaticamente. Ele inclusive utiliza a metáfora do bumerangue, o qual apenas volta ao lançador se o seu alvo não tiver sido atingido. Assim, a “auto-realização, se transformada num fim em si mesmo, contradiz o caráter auto-transcendente da existência humana” (Pereira, 2007 citado por Frankl, 1988, p. 38).

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