Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida

Por Elisabeth Lukas.

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[dc]O[/dc] telefone tocou, era uma mulher de Berlim que queria falar comigo. “Doutora”, disse-me ela, “estou sofrendo muito com minha superficialidade, reprimo as coisas boas da vida e estou regredindo no relacionamento com as outras pessoas… Que posso fazer contra isso?”.

Eu nunca tinha ouvido falar dessa senhora, mas dentro de mim surgiu uma certa suspeita.

“Você terá lido algum livro de psicologia?”

Prontamente ela confirmou minha suspeita. Era uma pessoa de cinquenta anos de idade, havia sido professora, era casada, havia criado um filho e “agora estava um pouco como que flutuando no ar”. No trabalho, que já deixara havia anos, ela não tinha mais trânsito; a educação do filho já não dependia mais dela, ele já tinha vida independente; e nesse ínterim o casamento havia perdido o encanto. Era uma crise de vida inteiramente normal, como é comum ocorrer, e que precisa ser superada pela busca de novos conteúdos e de objetivos pessoais adequados. Mas essa senhora, buscando ajuda em livros de psicologia, encontrara a descrição de inclinações errôneas e infantilidades que produziram nela um estado de angústia e de medo. Depois disso, quanto mais ela se auto-observava, tanto mais as coisas pareciam corresponder à sua própria situação. Adquiria mais livros e encontrava sempre mais deformidades em si própria, de modo que ficou completamente insegura e não sabia mais o que fazer; daí o seu grito de socorro dirigido a mim: “Que devo fazer?”

Minha resposta só podia ser esta:

“Por enquanto esconda seus livros de psicologia no canto mais escuro de sua casa e esqueça o que você leu! Não se preocupe com falta de conteúdo, regressão e outras palavras amedrontadoras, e deixe de ficar observando a si própria! Muito mais importante do que isso é que você dê à sua vida uma forma construtiva, pois precisa lembrar-se de que hoje é o primeiro dia do resto de sua vida. O que vai fazer desse ‘resto’, isso depende unicamente de você, se irá preenchê-lo com tarefas que tenham sentido e até fazer dele talvez o período mais belo e fecundo de sua vida. Olhe um pouco o mundo exterior ao redor de si, observe o círculo de conhecidos: em toda a parte existe gente que precisa de você, se você estiver disposta a se abrir em um ato de amor ao próximo. No âmbito da escola, no campo da música, em toda parte existem oportunidades de ação que irão fazê-la feliz, contanto que você abra os olhos e desvie o olhar do seu próprio eu!”

Fonte: Lukas, Elisabeth. Histórias que curam… porque dão sentido à vida. Campinas, SP: Verus, 2005. (p. 11-12)

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