Há coerência entre a vida e a obra de Viktor Frankl?

Por Marina Lemos S. Freitas. Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl.

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[dc]O[/dc] filósofo Romano Guardini (1949, citado por Marz, 1981, p. 9) disse sobre aquele que ensina que “o primeiro que influi é a personalidade do educador; o segundo, sua maneira de agir; somente em terceiro lugar, o que diz” ou escreve, podemos acrescentar. É fundamental, portanto, haver coerência entre a vida e a obra de um autor, de um mestre, pois isto aumenta a credibilidade de sua obra.

Nestes tempos atuais, de virada de milênio, de crise existencial e de valores, de violência e depressão, Viktor Emil Frankl é citado como o pensador, o cientista, o filósofo que ofereceu uma das mais importantes contribuições para a humanidade. Sua influência tem aumentado significativamente neste início de século e está se estendendo a várias áreas da ciência e da convivência.

A obra de Viktor Frankl é altamente mobilizadora e convoca a pessoa humana a uma postura livre e responsável diante da própria vida. Verificar se isto aconteceu com seu autor, ou seja, verificar se há coerência entre a vida e a obra de Frankl, aumentará a credibilidade não só na teoria, mas na efetividade de sua aplicação.

O presente trabalho pretende responder a esta questão em três momentos:

  1. Contextualização histórica, familiar e de vida pessoal.
  2. A partir de seu livro “Em busca de sentido”, extrair as atitudes que favoreceram a superação dos obstáculos no campo de concentração e relacionar com sua teoria;
  3. A partir de seu livro “O que não está escrito nos meus livros”, extrair os princípios de vida do autor.

CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA, FAMILIAR E DE VIDA PESSOAL

Quando, em 1905, Viktor Frankl nasceu em Viena, Áustria, a cidade era a sede do Império Austro-húngaro, uma das mais majestosas capitais européias, expoente nas artes, na arquitetura, na filosofia e nas ciências. A Universidade de Viena era foco de atividade intelectual e de criatividade. A comunidade de judeus era numerosa e a grande maioria dos médicos e advogados era judia. Ninguém podia suspeitar que a monarquia e a unidade do Império começavam a desmoronar.

Contexto familiar

O pai, Gabriel Frankl, cursou Medicina até o 5º ano, mas por motivos econômicos, ou anti-semitas, não pôde se formar. Foi contemporâneo de Freud durante seu curso, na mesma escola que futuramente seu filho Viktor iria cursar. Trabalhava para a monarquia e depois para o governo. Faleceu por inanição no campo de Theresienstadt, sob os cuidados de Viktor. Sua mãe, Elza Lion, descendente de um famoso rabino de Praga, morreu na câmara de gás em Auschwitz. Tiveram três filhos: Walter Augusto, Viktor Emil e Stella Josefina.

Os pais eram judeus praticantes, mas não ortodoxos, e rezavam diariamente. Conviviam bem com os vizinhos, independentemente de suas crenças religiosas.  Já enfrentavam a discriminação, mas isto não afetou o sentido de segurança e satisfação da infância.

Viktor nasceu a 26 de março de 1905. Ao longo de sua vida honrou seu pai e sua mãe, mantendo-se fiel a um dos grandes mandamentos da sua fé. Sempre tomava a bênção dos pais, e, depois que o pai faleceu, quando ainda estavam no campo de Theresienstadt, o fazia toda vez que encontrava e se despedia de sua mãe, até ser transferido para Auschwitz.

Infância

Viktor teve uma infância feliz, sem carências econômicas, com importantes aportes culturais e religiosos e com um ambiente familiar afetuoso e sereno. O pequeno “Vicky”, como era chamado, passeava bastante com os pais pelas praças de Viena, principalmente na Praça Prater, e desde pequeno já começava a perguntar pelo significado, o propósito das coisas, por exemplo, pelo significado do umbigo, chegando ele mesmo a uma conclusão.

Com três anos, decidiu ser médico; com quatro, manifestou seu interesse pela pesquisa, “inventando” um remédio para quem queria se suicidar, e nesta idade já o inquietava a idéia de morte, de finitude. Com cinco anos, quando despertou, mas ainda mantinha os olhos fechados, sentiu uma imensa felicidade e bem-aventurança, sentimento de amparo e proteção. Ao abrir os olhos, seu pai sorria para ele (Fizzotti & Scarpelli, 2005, p.6).

Com a I Guerra, passaram penúria e fome, pois os alimentos eram racionados; “todos os membros da família aprenderam a sobreviver com poucas coisas e entenderam o significado da palavra pobre” (Klingberg, 2002, p.55) Chegou a pedir pão nas casas de campo, durante férias na terra natal de seu pai, Pohrlitz.

Com 11 anos, Viktor saia de casa às três horas da manhã, inclusive no inverno, para ficar na fila do mercado para sua mãe comprar pão; e depois, ia para a escola. Já nesta idade experimentava a auto-transcendência, mesmo sem saber conceituá-la.

Era um bom aluno, mas freqüentemente lento e centrado em seus próprios interesses. Seu corpo era pequeno e raquítico, bem diferente dos irmãos. Com o alpinismo, desafiou suas aparentes limitações físicas. Era alegre e bem humorado e gostava de contar piadas.

Adolescência

No começo da adolescência, gostava de discussões com os colegas sobre grandes pensadores ou novas idéias da filosofia e psicologia. À noite, assistia aulas de psicologia para adultos.

Quando tinha 13 anos, durante uma aula no Sperlgymnasium (onde Freud também estudou), o professor de Ciências falou que a vida não era nada mais que um processo de oxidação e combustão. Viktor ao ouvir isto, enfrentou o professor e perguntou: “Senhor, se é assim, qual pode então ser o sentido da vida?” (Klingberg, 2002, p.65)

Também passou por um período ateu, nihilista, uma crise que foi um período de busca, de perguntas e desesperança. O pessimismo que sentia não era típico dele, mas foi um período importante. Cedeu à idéia de que a vida carece de sentido e é fútil e sucumbiu a alguns efeitos desumanizadores destas idéias. Este período culminou com olhar de frente a pergunta: o que é o que, depois de tudo, humaniza as pessoas? Qual o sentido da vida? Nesta idade já começou sua busca filosófica.

Com 14 anos lia sobre filosofia, psicologia e fisiologia, escrevia seus próprios textos, centrava sua atenção em algumas questões e deixava de lado as notas da escola e algumas das matérias que eram ensinadas ali. Com 15 anos, começou a filosofar por si mesmo. Com 15 ou 16 anos, fez uma conferência sobre o sentido da vida, desenvolvendo dois de seus pensamentos fundamentais (García Pintos, 2007, p.37; Frankl, 2003, p.45-46 ):

a) não devemos perguntar pelo sentido da vida, porque somos nós mesmos que somos pela vida interrogados.

b) o sentido último transcende nossa capacidade de compreensão, no qual somente podemos crer.

Nestes anos começou a corresponder-se com o Prof. Freud, apaixonado pela psicanálise.

FORMAÇÃO ACADÊMICA

Com 17 anos, escreve o texto: “Sobre a origem da mímica afirmativa e negativa” enviando-o a Freud que o publica, posteriormente, no Jornal Internacional de Psicanálise (Frankl, 2003, p.39).

Ao mesmo tempo em que se agarrava a Freud, também começou uma relação, que duraria por toda a vida, com o Existencialismo, um movimento europeu que surgiu como reação ao resto dos sistemas filosóficos e científicos dominantes. O jovem Viktor começou a perceber o nihilismo e o reducionismo como uma ameaça, não só para seu próprio ser como para toda a sociedade. Aproximou-se então dos existencialistas mais positivos e otimistas: Martin Heidegger, Gabriel Marcel, Karl Jaspers, Martin Buber, Max Scheler (Klingberg, 2002, p.68-69). Graças a outros filósofos e professores, Viktor pôde sair a tempo de sua crise nihilista e começou a forjar suas próprias convicções.

Foi, durante um tempo, porta voz das Juventudes Obreiras Socialistas da Áustria, realizando um trabalho social ligado a Adler. Em 1924, com 19 anos, inicia seus estudos na faculdade de Medicina da Universidade de Viena. Aos 21 anos, estudante de Medicina, faz um discurso sobre o Sentido da vida, sobre o suicídio e sobre sexualidade para a Juventude Obreira Socialista. Participou e foi excluído da Associação de Psicologia Individual de Adler. Foi vice-presidente da Associação Acadêmica para Psicologia Médica, que tinha Freud como assessor. Nesta associação, deu uma conferência em 1926, com 21 anos, falando de Logoterapia pela primeira vez diante de um público acadêmico.

Com 24 anos criou as três categorias de valores, ou seja, as três possibilidades de encontrar um sentido para a vida (Frankl, 2003, p.53-54):

a) uma ação que realizamos ou uma obra que criamos;

b) uma vivência ou um encontro de amor;

c) dando testemunho da capacidade mais humana possível: a capacidade de transformar o sofrimento em uma conquista humana. Ou, dizendo de outra forma, mudar nossa atitude diante do sofrimento.

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