Frankl aos 90: uma entrevista

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CONGRESSO COMEMORATIVO DO 90° ANIVERSARIO DE VIKTOR EMIL FRANKL
SESSÃO DE ABERTURA
19 DE MAIO DE 1995 – Konzerthaus, Viena, Áustria
Entrevista com o Dr. Frankl
Entrevistador: Prof. Kurz – Alemanha
Tradutora: Terezinha Humann – Especialista em Logoterapia – PUC-RS
Novo Hamburgo – RS

FRANKL: Em 1º lugar, com sentimento de gratidão. De um lado, tive cuidado com a saúde e de outro dediquei-me a grandes obrigações. Agradeço todo o dia pela vontade de viver que tenho: vontade de viver não para mim mesmo, mas para servir as pessoas que necessitam de ajuda. Lembro-me, perfeitamente, que em 1994, um dia eu estava numa estação de trem onde se via uma placa indicando “Auschiwtz” – e eu ia para lá. Isso me dizia que, pelas estatísticas, daquele dia em diante a minha chance de viver era de 1 para 29. Quando se tem essa graça de sobreviver, tem-se a obrigação de fazer o melhor que se puder. Se a gente consegue chegar ao dia seguinte, tem que agradecer. Até hoje tenho o mesmo sentimento que tive em Auschiwtz.

Kurz: O Sr. escreve que teve a oportunidade de emigrar para os Estados Unidos na eclosão da guerra e não quis. Porque?

Frankl: Se eu fosse para os Estados Unidos, a logoterapia teria sido diferente: lá iria se desenvolver mais rapidamente, pois existe mais interesse pela psicoterapia. Assim pensei: a quem devo responder? À publicação de uma nova teoria terapêutica ou pela minha responsabilidade com minha pátria? Já possuía o passaporte, mas ainda tinha que buscar o visto na Embaixada dos Estados Unidos. Aí, pensando, dirigi-me ao mármore. Minha primeira mulher tinha achado essa pedra na frente da maior sinagoga que havia sido destruída. Nesse mármore havia somente um a letra gravada: era a letra do livro Leis do Altar que correspondia ao 4º Mandamento. Esse foi para mim um sinal, para eu ficar aqui na minha terra, com meus pais, familiares e compatriotas.

Kurz: Todo o sistema terapêutico tem muito a ver com o modo de viver da pessoa do terapeuta?

Frankl: Você pode interpretar um fato de diferentes maneiras. No meu caso, a pedra que tanto me tocou poderia ser interpretada apenas como um mármore, como um carbonato ou com o um símbolo. Encontrei nela um significado e assumi a responsabilidade de ficar em minha terra com meu povo e minha família.

Kurz: O Sr Lutou a vida inteira contra o psicologismo. O que significa isso?

Frankl: O psicologismo é um capítulo do evolucionismo. O reducionismo não responde a tudo. Há dois pontos no psicologismo. Um deles, naturalista, afirma que o homem nada mais é que uma combustão. Quando jovem ouvi isso numa conferência. Saltei e perguntei: “Qual é o sentido da vida?” No final do século, muitos não vão mais se iludir com o tecnicismo e vão também fazer a pergunta sobre o sentido da vida. Outro aspecto: o mundo atual entrou num niilismo pessoal; ele criou um oxidacionismo da vida. Freud dizia que a filosofia não era mais que sublimação do instinto sexual e que a religião tem tudo a ver com o complexo de castração. Isso é um reducionismo. Também quando olham e dizem que a causa dos problemas da sociedade humana são os problemas econômicos, isso é falso. Esquecem que a pessoa tem uma dimensão espiritual e é, ao mesmo tempo, bio-psico-social-espiritual. E o mais importante é o espiritual; Scheller e outros autores falam é nem combustão química, nem vegetal; distingue-se do animal e tem uma dimensão que aponta para o mais alto. A pessoa tem a dimensão biológica ou físico-química e os determinantes dos relacionamentos, mas tem, também, uma dimensão nova e mais alta. Você pode dizer que a religião se origina no complexo de castração e que é uma neurose obsessiva, mas se você tiver um ponto de vista verdadeiramente humano, não cairá em reducionismos.

Kurz: Além da Psicoterapia, o Sr coloca a filosofia na sua doutrina. Como o Sr vê, pois, o idealismo?

Frankl: Com o paciente eu só falo nos sentimentos concretos. Como médico psiquiatra, tenho que ver a realidade concreta. Aplico o dialogo socrático na psicoterapia. Ele deve ser aplicada a todos os pacientes, tanto com ateus como os religiosos. O logoterapeuta tem que ser isento e usar o sentido concreto da vida daquela paciente, pois o sentido é só dele.

Kurz: Qual a diferença entre valores e sentido da vida?

Frankl: Hoje falam muito em sentidos universais. São valores que estão na história da humanidade e que se cristalizaram. No campo de concentração de Theresienstadt pesquei uma coisa para dar de presente a minha primeira mulher, ela me disse: – “Onde conseguiste isso? Viktor, eu te conheço. Você nunca roubou. Você trocou isso por outro alimento.” Isso ela dizia, porque sabia que era um valor para mim, por isso, eu procuro ver o sentido concreto das pessoas que estou tratando.

Kurz: O Sr conduz o trabalho terapêutico para uma terapia baseada em valores?

Frankl: A consciência é o órgão do sentido e aponta os valores. Está implícito, nessa concepção, que esse órgão dá sentido a qualquer situação, por isso é que o intuitivo deve prevalecer na psicoterapia.

Kurz: Como o Sr vê a problemática atual?

Frankl: Hoje o problema maior não é econômico, nem ecológico, mas é o sentido, isto é, a falta de sentido.

Kurz: Por que uma pessoa que tem uma resposta ou uma razão para viver não comete suicídio?

Frankl: Porque tem uma visão do futuro. A depressão, a agressão e a adição é uma tríade que vive o homem de hoje. Um motorista de taxi perguntou-me uma vez: “Por que os jovens são tão loucos? Por que se suicidam? Por que mata os outros e tomam drogas?” Isso tudo é uma coisa só. Como psicoterapeuta, vejo a contradição do jovem. Aqueles que acharam seu caminho, ou seja, os que conseguem ver o futuro, conseguem encontrar um sentido na vida. São salvos os que conseguem responder por que estão salvos.

Kurz: O Sr discordou de Freud, não é? O Sr teve muitos opositores no mundo? Como o Sr vê estas dificuldades?

Frankl: Encontrei Freud num parque em Viena. Atualmente se chama “Parque Freud”, ele era um senhor de idade avançada com bengala e charuto. Chamei-o: “Professor Freud?” E disse-me quem eu era e o meu endereço, como conhecia a todos os alunos e respondia a todas as cartas. Após entregar-lhe meu artigo, Freud logo mandou publicá-lo no jornal de Psicanálise, porém, ele já sabia que eu estava ligado a linha de Adler de quem também me afastei doutrinariamente.

Kurz: Vou repetir a frase dita ontem pelo senhor “A vida é um amadurecer como a árvore que não perde a sua seiva, quando, no inverno, perde as suas folhas; na primavera torna a renascer.” Agora vou lhe ofertar um presente. Sabemos que, para Frankl, os melhores presentes sempre foram jogos de roleta, jogos de inteligência e gravatas, muito apreciada pelos vienenses. Vamos lhe oferecer uma. E como a terapia mostra o renascer da pessoa, oferecemos também o primeiro compêndio de logoterapia recém editado por vários autores.

Frankl agradeceu alegre e emocionado. Colocou imediatamente a gravata no pescoço, sobre a outra. Tomou o livro nas mãos e depois levantou os braços em sinal de agradecimento para a platéia que lotava o Konzerthaus, aplaudindo-o em pé. Dirigiu-se para sair pela porta esquerda. Alguém alertou-o que deveria voltar e tomar o rumo da porta da direita, ao que ele respondeu: “Eis um caso de intenção paradoxal!” (uma técnica de logoterapia). Sua disposição forte e feliz expressa uma personalidade incomum, carismática e inesquecível, sobretudo, densa de humanidade.

Fonte: Nous – espiritualidade e sentido

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