Felicidade e sentido de vida na sociedade de consumo

Por Daniele Cajaseiras Matos. Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Exisencial (ABLAE).

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Atualmente percebemos homens e mulheres que buscam a felicidade cada vez mais no ato de consumir. Isso levanta um questionamento para nós, porque percebemos muitas doenças e insatisfações das pessoas na sociedade contemporânea. Será que realmente o homem contemporâneo está encontrando a felicidade tão almejada? Porque os níveis psicopatológicos têm se elevado tanto na atualidade? Porque vivemos na era do vazio existencial? Dessa forma é relevante direcionarmos o nosso olhar para a maneira como a subjetividade dos indivíduos da sociedade contemporânea está sendo construída e como a sociedade de consumo influencia sua saúde emocional.

PSICOPATOLOGIA E CONTEMPORANEIDADE

Toda a atmosfera cambiante da cultura ocidental tem proporcionado questionamentos sobre o impacto dessas mudanças nas mais diversas dimensões. Interessa-nos uma discussão que ocupa teóricos e clínicos das áreas “psi”: os sintomas psíquicos contemporâneos ou pós-modernos. Embora a discussão tenha se tornado recorrente nos meios acadêmicos, ainda está longe de um consenso. Para Sloan (2002), alguns filósofos da modernidade estão dispostos a aceitar, como a condição fundamental do sujeito no mundo, o fato de que nunca houve e nunca haverá um sujeito autônomo, crítico e centrado. É uma concepção que afirma uma visão de personalidade que poderíamos chamar de “pós-moderna”. Sloan (2002) afirma que esta concepção:

atribui essa nova realidade pessoal à “globalização”, um processo de comunicação internacional que nos permite dar-nos conta de que o sujeito da sociedade liberal ocidental não é único no mundo e inclusive que desde a época de Descartes esse sujeito tem representado a si mesmo falsamente. As representações científicas da pessoa sempre têm um caráter ideológico, mas, nesse caso, temo que a nova concepção nos levará a fazer referências à personalidade pós-moderna, ignorando suas dimensões psicopatológicas (p.45).

Aceitar esse caráter como uma visão de normalidade ou como um avanço da civilização seria um equívoco de nossa parte, pois ele representa uma ausência de progresso em aspectos nos quais os novos membros da sociedade são formados. Pois na sociedade contemporânea a criança tem que integrar uma imensa complexidade de interações e imagens, a partir das quais tem que organizar um sentido estável do seu eu. Além disso: “aspectos parciais do outro estão incorporados no sentido do eu ou em imagens idealizadas, poderosas e destruidoras. Uma verdadeira intersubjetividade se torna impossível.” (Sloan, 2002, p.44). Ora, o fundamento da intersubjetividade é a possibilidade concreta de ser, de se expressar e de se comunicar com o mundo: “por meu corpo me expresso mundanamente e ao mesmo tempo sou consciência da existência do outro” (Rovaletti, 1984, p. 491) Dessa forma podemos dizer que o sujeito contemporâneo está seriamente ameaçado em sua forma de ser-no-mundo.

Estamos presenciando a colonização do Lebenswelt, do mundo da vida simbólico, espiritual e cultural. Essa colonização gera: “ausência de subjetividade, alienação, desorientação, perda de sentido, reações automáticas no comportamento, etc.” (Sloan, 2002, p. 46). Ao apontarmos os sintomas contemporâneos que têm tomado as discussões entre os estudiosos, não buscamos enquadrar a expressão do sofrimento, mas trazer à superfície a reflexão em torno da construção representativa do sofrimento diante da relação imbricada com o social: “a realidade psíquica não existe no vazio” (Mezan, 2002, p. 166). É na relação com o mundo, com o outro, que se constrói e reconstrói a vida interna do indivíduo, o que inclui as manifestações do sofrimento psíquico.

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