Estudos buscam identificar idade em que o declínio cognitivo tem início

Pelo Correio Braziliense

[dc]P[/dc]ara as rugas, há botox; a flacidez resolve-se com lifting; as varizes saem com laser. Retardar os efeitos do envelhecimento no corpo está cada vez mais fácil. Mas, se os tratamentos estéticos disfarçam por fora, existe um órgão que insiste em lembrar as pessoas de que elas já não são tão jovens assim: o cérebro. O consenso na comunidade científica é que as funções cognitivas — memória, aprendizagem e razão — começam a declinar aos 60 anos. Uma pesquisa recente, porém, colocou em dúvida essa certeza, afirmando que, na verdade, já aos 45, o indivíduo apresenta os primeiros sinais de perda da capacidade cognitiva.

O estudo, curiosamente, foi publicado na mesma semana em que outro trabalho científico garante que idosos com mais de 70 anos podem se sair tão bem na execução de determinadas tarefas quanto os mais jovens. O Correio consultou os pesquisadores que tentam responder a controversa questão: afinal, quando o cérebro começa a falhar?

Para Roger Ratcliff, professor de psicologia da Universidade de Ohio e um dos autores da segunda pesquisa, isso é bastante relativo. “Depende da tarefa. Aquelas menos complexas ou que exigem rapidez e precisão podem ser desempenhadas normalmente por adultos de qualquer idade, mesmo os que chegam aos 90 anos”, garante o especialista, que há uma década investiga o declínio cognitivo associado ao envelhecimento. “Sim, é fato que, quanto mais velho o indivíduo, mais ele vai demorar a tomar uma decisão. Para a maioria das pessoas, isso é sinal de que o cérebro já não funciona tão bem. Mas, na verdade, o que ocorre é que os mais velhos pensam mais antes de se decidir. Algo que, convenhamos, é bastante sábio”, comenta.

Essa não é uma opinião pessoal, ressalta Ratcliff. “São constatações que fizemos em diversos estudos.” O mais recente comparou o desempenho de crianças, jovens, adultos e idosos na execução de uma tarefa que exige fluência verbal e raciocínio. Na frente de um computador, os participantes viam sequências de letras interrompidas por asteriscos e deviam dizer se elas formavam uma palavra em inglês. Estudantes universitários e jovens adultos foram um pouco mais rápidos que os voluntários com mais de 60 anos. Mas a diferença de tempo na escolha foi insignificante. Já as crianças mostraram-se bastante rápidas: em compensação, erraram muito mais que os outros grupos.

“O que acontece é que pessoas mais velhas, tenham elas 30, 50 ou 80 anos, são mais preocupadas com a precisão de suas escolhas; elas não querem cometer erros, então, quando expostas a esse tipo de teste, tendem a agir como agem no dia a dia. Treinadas, elas conseguem fazer esses exercícios rapidamente”, assegura Gail McKoon, especialista que divide com Ratcliff algumas dessas pesquisas. Ele garante que é um mito achar que adultos mais velhos, necessariamente, têm um cérebro mais vagaroso.

O pesquisador esclarece que, em nenhum momento, nega o efeito do envelhecimento no processo cognitivo. “A memória, por exemplo, declina mesmo com a idade. Mas isso não é uma fórmula pronta. Ou seja, o declínio não ocorre de maneira uniforme. Há muitas coisas que pessoas mais velhas e mesmo as bem idosas fazem quase tão bem quanto os jovens”, garante. Os estudos realizados por Ratcliff são financiados pelo Instituto Nacional de Envelhecimento dos Estados Unidos e pelo Instituto Nacional de Saúde Mental.

Primeiros sinais
As descobertas dos psicólogos vão contra a pesquisa da University College London. A investigação examinou dados de um estudo epidemiológico da Inglaterra realizado com 5.198 homens e 2.192 mulheres com idades entre 45 e 70 anos no início da pesquisa, acompanhados por 10 anos. Nesse período, elas passaram por três testes de memória, vocabulário, raciocínio lógico e fluência verbal. Os resultados mostraram que, excetuando as provas de vocabulário, houve declínio na performance em todas as faixas etárias, indicando que, a partir dos 45, o cérebro não é mais tão eficiente.

Os participantes foram divididos em grupos de 45 a 49 anos, 50 a 54, 55 a 59, 60 a 64 e 65 a 70. Os testes realizados ao longo de uma década envolviam questões como reproduzir, de memória, uma sequência de letras apresentadas previamente, listar todos os animais cujos nomes começam com a letra S, fazer cálculos matemáticos simples e complexos, e identificar padrões semelhantes em um conjunto de figuras, por exemplo. Passados 10 anos, os pesquisadores observaram declínio cognitivo nas cinco faixas etárias, sendo que na primeira o percentual de perda foi de 3,6% e, na última, de 9,6%. “Algumas notícias sobre nosso estudo foram mal interpretadas. Não estamos dizendo que, aos 45 anos, as pessoas já apresentam declínio cognitivo, mas que, nessa fase, inicia-se o processo”, esclarece uma das autoras do estudo, Archana Singh-Manoux, do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Medicinal da França.

Ela justifica a importância de detectar precocemente os primeiros sinais de declínio porque a população mundial está envelhecendo, e falha de memória e dificuldade de raciocínio são as principais queixas de pessoas mais velhas. “Se pudermos usar intervenções antes que isso aconteça, então poderemos evitar esses problemas”, acredita. A pesquisadora lembra que há fortes indícios de que fatores como obesidade, doenças cardíacas e hipertensão estão relacionados às perdas cognitivas. “Essas questões são fáceis de controlar. Faça uma dieta, cuide do seu coração, reduza o consumo de sódio e talvez você possa evitar uma futura demência”, diz.

Em um comentário publicado no British Journal of Medicine, em que a pesquisa de Singh-Manoux foi divulgada, Francine Grodstein, professora de medicina do Brigham and Women’s Hospital de Boston, nos Estados Unidos, lembra que declínio cognitivo não é uma doença, mas, quando o indivíduo começa a apresentar problemas de memória ou de raciocínio cedo, isso pode ser um sinal de que, no futuro, vá desenvolver algum tipo de demência, como o mal de Alzheimer. “Estamos entrando em uma nova era na pesquisa e prevenção da demência. Há provavelmente muita esperança de identificar meios que evitem o desenvolvimento do problema, mas o grande desafio é justamente descobrir abordagens novas e criativas”, observa.

Para Grodstein, a pesquisa de Singh-Manoux é um indício de que a linha de investigação nessa área está se diversificando, já que foram poucas as vezes em que indivíduos com menos de 60 anos foram foco de estudos sobre declínio cognitivo. Ela alerta, porém, que, para chegar a uma conclusão sem margem de dúvidas, é preciso aumentar a amostragem para dezenas de milhares de participantes e novos tipos de testes, porque os atuais podem não estar sendo mais tão eficazes.

“(Tarefas) menos complexas ou que exigem rapidez e precisão podem ser desempenhadas normalmente por adultos de qualquer idade, mesmo os que chegam aos 90 anos”, segundo Roger Ratcliff.

“Algumas notícias sobre nosso estudo foram mal interpretadas. Não estamos dizendo que, aos 45 anos, as pessoas já apresentam declínio cognitivo, mas que, nessa fase, inicia-se o processo”, diz  Archana Singh-Manoux.

A matéria pode ser lida aqui.

[hr]

Deixe uma resposta