De mãos dadas

Por Rogener Almeida. Instituto Geist.

crônica, logoterapia, amor materno, viktor frankl, instituto geist

[dc]M[/dc]inha posição ao volante do carro me permitia ver a rua inteira a minha frente. De longe eu visualizei as duas pessoas lá no final da rua, caminhando em um ritmo levemente acelerado, com movimentos rítmicos e harmoniosos. À medida que eu me aproximava comecei a perceber mais detalhes. A mulher tinha um corpo com curvas bem marcadas, a estatura mediana, pele branca, os cabelos presos em um coque firme, a nuca delicada apresentava certa vulnerabilidade, o vestido quase solto expressava leveza e certa displicência. Estava de mãos dadas com um garoto, mais baixo que ela que pela estatura aparentava ter 10 anos. O ombro pendia para a direita, sua cabeça parecia muito pequena e seu corpo delgado balançava todo com o movimento das mãos. Aquelas mãos unidas pareciam ser a expressão de um vínculo sublime. Tocavam-se com uma firmeza e uma confiança que pareciam sagradas. Aquele contato revelava doçura, encantamento e harmonia. Diminui a marcha do carro e segui devagar apreendendo com enlevo a cadência dançante daqueles dois seres quase humanos. Fui me aproximando enquanto aumentava a minha sensação de admiração. As mãos tocavam-se para além do corpo físico. A cumplicidade manifestada no toque os envolvia em uma aura preciosa que lhes fazia ignorar os perigos comuns do cotidiano. Olhavam para frente e poucas vezes voltavam-se para o lado e quando isso ocorria os olhares se encontravam serenos e livres.

Reconheci o menino e aquela era a sua mãe. Ele era o mesmo que vi em uma escola, andando inquieto, falante, invasivo, sem atender as regras de convívio social usuais. Abordava qualquer pessoa que passava, contava suas historias, sempre verdadeiras não importando o quanto chocaria ou não os ouvintes. Não batia nas portas, sempre abria com naturalidade, como se tivesse o dever de estar ali. Quando questionado justificava-se sem pudor. Suas necessidades o impulsionavam a fazer: – estou aqui porque precisei acompanhar esse senhor; – Tive vontade de beber uma água mais gelada; – Eu quis conversar com pessoas diferentes; – Precisei descobrir como funcionava essa máquina… Sua vontade não tinha filtro e suas justificativas, invariavelmente, vinham acompanhadas de um sorriso e um ar de espanto por ser questionado em algo que lhe era totalmente natural. Suas narrativas eram longas e repetitivas e muitas vezes enfadava os ouvintes, mas tinha uma lógica aristotélica que não correspondia aos contrastes que sua imagem projetava no interlocutor. Era um contador de historias que não conseguia sucesso com a leitura. Em anos de escola não conseguia dominar as palavras, as frases e as orações na língua escrita. O corpo frágil e torto de um menino de 10 anos, era colado a uma cabeça pequena, com um rosto onde despontavam firmes barba e bigode. Nos braços magros e curtos, músculos saltavam rígidos anunciando sua verdadeira idade. Cronologicamente era um adolescente de 15 anos, cujas dimensões afetiva, cognitiva e física não sincronizavam… No dia que o conheci, ao vê-lo “solto”, sem a presença de nenhum responsável a acompanhá-lo aderi aos comentários correntes sobre a negligencia de sua família, a transferência de responsabilidade da mãe que o deixava assim, para poder dançar e enquanto curtia sua aula de dança delegava suas tarefas de cuidar do próprio filho… Seria irresponsável ou inconsequente essa senhora?

Enquanto os observava, ele e sua mãe seguiam absortos. Simplesmente caminhavam juntos. Fiquei encantada e comovida com a cena e entendi ali que a mão na mão sustentava aquelas vidas. Desfiz minhas percepções e posições anteriores. Compreendi não com conceitos politicamente corretos e abstratos, mas pela vivência empática daquele instante: aquele garoto e todas as pessoas que nascem fora dos padrões da dita normalidade, a qual só existe abstratamente, precisam andar de mãos dadas, como amparo, como apoio, como presença e como reconhecimento de sua humanidade. Todos somos responsáveis pelas as escolhas que fazemos e como afirmava o grande psiquiatra Viktor Frankl, onde há liberdade, há responsabilidade. Entretanto, considerando-se que nenhuma mãe escolhe a deficiência do filho, como responsabilizá-la sozinha por algo que não foi uma opção? As pessoas com deficiência ou não, são, também, responsabilidade da sociedade em que vivem. Temos o dever de dar a mão, a mão firme e suave, a mão que toca a pele e o coração.

Admirei aquela mãe com ares de bailarina, que aprendeu a conviver com o filho que não “imaginou”, e nem “desejou”, que se permite viver a própria vida usufruindo dos interesses e prazeres possíveis, que se alimenta de esperança e confia na generosidade das pessoas para compartilhar suas tarefas de cuidado com esse menino especial. Que favorece a socialização do filho em uma relação espontânea e ingênua, não se deixando oprimir pelos prováveis riscos. Fui tocada na minha maternidade mais íntima e agradeci a Deus por existir gente que caminha na vida de mãos dadas, flutuando no tempo a espera de um milagre…

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