Contribuições de Viktor Emil Frankl ao conceito de resiliência

Por Daniel Rocha Silveira e Miguel Mahfoud. Universidade Federal de Minas Gerais.

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[dc]O[/dc] mundo da alta modernidade “está repleto de riscos e perigos, para os quais o termo ‘crise’ – não como mera interrupção, mas como um estado de coisas mais ou menos permanente – é particularmente adequado” (Giddens, 2002, p.19).

A crise e a dor, que perpassam a subjetividade, tornam-se foco de interesse das ciências, em especial a psicologia, que busca, por meio de estudos e pesquisas, compreender e dar respostas ao ser humano. Este reflete e se pergunta: por que existe a dor? Ela é meramente destrutiva, ou é possível transformá-la em oportunidade de crescimento?

Olhando cuidadosamente ao redor, podem-se identificar pessoas e sociedades que superaram e superam seus sofrimentos. Existem testemunhos que o atestam: comunidades e indivíduos que cresceram com experiências difíceis e superaram os obstáculos, alcançando realização com criatividade e esperança.

Uma população altamente vulnerável em situação de violência e pobreza foi acompanhada durante mais de trinta anos por pesquisadores, na ilha de Kauai, Hawai. Surpreendentemente, um terço destas pessoas não sofreu danos psíquicos. Esses pesquisadores (Infante, 2002) imediatamente qualificaram-nas como “crianças invulneráveis” e buscaram um nome que melhor adjetivasse esta invulnerabilidade. Encontraram na física a palavra resiliência, que significa “propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após serem submetidos a uma deformação elástica” (Houaiss & Villar, 2001, p.2437). Aquelas crianças teriam voltado à forma original após serem submetidas à força das adversidades (Infante, 2002).

Logo a expressão “crianças invulneráveis” mostrou-se inadequada, já que havia vulnerabilidades. Os achados científicos mostraram que a resiliência não é um atributo fixo ou um traço de personalidade, mas sim algo que se constrói como um tecido no espaço entre o indivíduo e a sociedade. Não é somente individual, nem somente social. Envolve outras pessoas, é dinâmica e forma-se sempre com a presença de um outro humano que dê suporte à pessoa que sofre, oferecendo uma escuta compreensiva, uma presença motivadora (Canelas, 2004; Cyrulnik, 2001; Infante, 2002). Surgiu na psicologia um novo campo de investigação, que voltou o olhar para as pessoas em adversidades, atentando para os recursos, as fontes de saúde e os processos motivadores de adaptação positiva, entendendo a adaptação não como conformidade social, mas como a transformação ativa da sociedade, de forma construtiva (Melillo, 2004b).

Na história da humanidade, os grandes resilientes foram justamente aqueles homens e mulheres que se propuseram mudar a sociedade e a cultura em que viviam, assumindo em si mesmos a tarefa de plasmar na sociedade seus próprios valores e ambições de transformação. … O sujeito resiliente é um sujeito crítico de sua situação existencial (Galende, 2004, p.60).

A resiliência passou a ser então uma nova lente, uma nova chave de compreensão da experiência humana que, intrinsecamente, vem marcada pelo sofrimento.

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