A última obra-prima

Por Elisabeth Lukas.

Arte, pintura, logoterapia, AIDS, sentido, liberdade, vontade, vida, morte

Estamos convencidos que a todo sofrimento pode estar associado um sentido, embora nem sempre consigamos percebê-lo. Somos livres para pôr um sentido em alguma coisa, mesmo quando não conseguimos decifrar o sentido que nela se esconde. O relato que segue pretende demonstrar essa possibilidade que, quando necessário, nos permite escolher ainda uma última tarefa e completá-la magistralmente, portanto pôr sentido na vida até ao derradeiro momento. É uma possibilidade que torna mais leve a despedida, mergulhando numa luz inextinguível aquilo de que nos despedimos. É o que se torna evidente no relato a seguir:

[dc]N[/dc]o âmbito de um curso de especialização para auxiliares terapêuticos, eu visitei certa ocasião um hospício para doentes de AIDS na Sicília.

Os inquilinos, na sua maioria, eram rapazes ou jovens que, quando adolescentes, haviam sido seduzidos ao vício pela máfia, ou de outras maneiras, e que em algum momento se haviam infetado pelo vírus da AIDS. Por causa de sua “carreira” de drogados, há muito suas relações familiares e de amizade encontravam-se rompidas. Muitos deles também haviam cometido crimes, e estavam presos. Com o avanço da doença, não havia mais nada que os médicos pudessem fazer por eles. Como não tinham casas que os pudessem acolher, para a fase terminal haviam sido transferidos para o hospício.

Quem já trabalhou com doentes de AIDS sabe que a fase terminal é extremamente dolorosa, e também muito humilhante, por causa das constantes diarréias. Os jovens ainda apresentavam belos rostos, mas seus corpos estavam muito debilitados, por vezes sacudidos por cãibras. Pior do que tudo, no entanto, era a falta de esperança e de resignação, o ter que esperar passivamente a morte, contra a qual eles se rebelavam com todas as fibras do coração.

Diante dessa situação, os auxiliares do hospício, que possuíam formação em logoterapia, introduziram uma experiência-piloto. Sob a direção de um artista russo, residente no local, conseguiram abrir uma oficina de pintura de ícones. Cada enfermo podia determinar o tamanho da placa de madeira que iria pintar, de conformidade com as forças que ainda julgava possuir. O tema da pintura também podia ser escolhido com liberdade, não precisava ser um tema religioso. Além de anjos e madonas, foram pintadas também paisagens, cenas das aldeias onde haviam crescido quando seu mundo ainda era são.

Depois disso, todos os que quiseram – e todos quiseram! – começaram a pintar os seus ícones. Cada um recebia regularmente orientação artística e, quando necessário, suportes e armações para poderem pintar sem levantar-se da cama. Aprenderam a misturar as cores, a aplicar finas camadas de verniz sob as quais transpareciam com suavidade as listras da madeira, a aplicar finas camadas de ouro e prata. Apesar da fraqueza, os doentes dedicaram-se à pintura com incrível dedicação e desapego.

Cada um, além disso, foi solicitado a dedicar seu ícone a uma pessoa, que o iria receber depois que ele morresse. Por exemplo, a alguém que ele amou um dia, ou a quem desejasse pedir perdão. Ocorreram aqui cenas tocantes. Um jovem doente de AIDS, por exemplo, dedicou a seu pai o ícone em que trabalhou com afinco, embora há anos o pai nada mais quisesse saber do filho viciado em drogas. Outros dedicaram seus ícones aos que cuidavam deles no hospício, como agradecimento por essa “última ajuda”. Estes ganharam um lugar de destaque no corredor da instituição.

Passados doze meses, qual o balanço da experiência-piloto que se acabou de descrever? Três coisas:

1. Desde que a pintura icônica foi introduzida no hospício, só foi consumida – em relação ao que se consumia antes – a metade dos analgésicos. Prova de que por algum tempo os enfermos “esqueciam” as suas dores.

2. Desde que a pintura icônica foi introduzida, deixaram de existir os terríveis gritos de agonia mortal que antes abalavam a casa. Prova de que os enfermos puderam morrer mais reconciliados.

3. O mais impressionante, no entanto, foi que durante os doze meses da experiência-piloto ninguém morreu sem antes haver concluído seu ícone. Prova da triunfal vitória do espírito sobre a enfermidade do corpo.

Em conseqüência desses resultados, pode-se recomendar a quem esteja gravemente enfermo que não perca, por medo da morte, a coragem de viver com sentido. Pelo contrário. Precisamente por causa da morte próxima comecem a criar sua própria “obra-prima”, seja em que for que ela consista. Não lhes há de faltar o tempo para isso.

Fonte: E. Lukas, Der Sinn des Augenblicks [O sentido do momento]. Tradução de Carlos Almeida Pereira.

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