A procura da felicidade versus A procura do propósito de Viktor Frankl

Por Cesar A. O. Coelho.

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“O rei, em sua riqueza e saciedade dos prazeres da vida, percebia-se ainda em uma infelicidade que nenhuma comida, bebida, mulher ou maravilha do leste poderia dar fim. Pergunta a seu conselheiro “Não há, no reino, posição maior que a minha, ninguém pode mais, ou tem mais motivo que eu para estar bem. E por que eu não estou? Por que me sinto assim? E o conselheiro lhe diz “V. Majestade é um homem bom. Olhe pelo povo e encontrará um fim à sua infelicidade”.

[dc]E[/dc]m 1942, o renomado psiquiatra e neurologista Viktor Frankl foi preso nos campos de concentração nazistas. Lá, ele atuou como psiquiatra por três anos antes do campo ser liberado. No seu livro “Man’s search for Meaning”, no qual descreve sua experiência nos campos, ele conta que, muitas vezes, a diferença entre as pessoas que sobreviveram e as que acabaram morrendo (não por execução, mas por outros motivos) era basicamente uma: um propósito, um significado na vida.

Ele observou que as pessoas que possuíam um propósito em sua vida, alguém por quem lutar, um trabalho importante a terminar, mesmo naquelas circunstâncias extremas; eram mais resilientes aos maus-tratos e mais dispostas a resistir àquele período do que as pessoas que não possuíam. Em seu livro, ele diz que “Tudo pode ser tomado do ser humano, menos uma coisa… a última das liberdades humanas – escolher a ação a ser tomada em uma dada circunstância, escolher o próprio caminho”.

Frankl se deparou com alguns casos em que as pessoas estavam totalmente sem esperanças e não encontravam mais sentido em continuar vivendo. Toda a dinâmica da vida já não mais lhes valia a pena. A tentativa de Frankl era mostrar-lhes que, de alguma forma, a vida ainda esperava algo deles, que eles ainda tinham algo a cumprir em suas vidas. Em um trecho do livro, ele diz:

 “Essa singularidade e singeleza que distingue cada indivíduo e dá um propósito a sua existência tem uma influencia tanto no trabalho criativo quanto tem no amor humano. Quando a impossibilidade de se substituir uma pessoa é compreendida, a responsabilidade que um homem tem por sua existência e continuação aparece em toda sua magnitude. Um homem que é consciente da responsabilidade que carrega por ter alguém que espera afetuosamente por ele, ou por um trabalho inacabado, jamais será capaz de tirar a própria vida. Ele sabe o “porque” de sua existência, e será capaz de suportar quase qualquer ‘meio’.” [tradução minha]

Confrontando essa perspectiva de Viktor Frankl com a nossa atual cultura da felicidade individual, Frankl escreve em seu livro que “Para o europeu, é cultura do americano que, de novo e de novo, se é comandado a ser feliz. Mas felicidade não pode ser buscada [diretamente], ela deve seguir-se a algo. E só o faz como um efeito colateral não intencionado […]”

Segundo a Organização Gallup Healthways, os americanos nunca estiveram tão felizes, atingindo o 4º ano seguido de alta nos índices de Bem Estar da população (baseados em mais de 30 mil ligações a residências aleatórias ao longo do ano). Além disso, quase 60% dos americanos se sentem felizes, sem muito estresse ou preocupações. Contudo, de acordo com um estudo do Center dor Disease Control, 4 em cada 10 americanos ainda não descobriram um propósito na vida que os satisfaça. Quase 40% não pensam que suas vidas tenham um sentido claro de propósito ou são neutros sobre se suas vidas tem algum propósito. Aproximadamente um quarto dos americanos são neutros ou não tem uma ideia clara do que faz suas vidas ter um significado. Resumindo, os americanos estão mais felizes, mas muitos não tem um propósito guiando sua vida.

Viktor Frankl, além de definir felicidade como uma das consequências de uma ação que teve outro objetivo, também diz que esse objetivo tem que, necessariamente, abranger algo maior do que nós mesmos, ou seja, não poderíamos atingir a felicidade fazendo coisas somente para nós próprios. Problema: experimentamos e agimos cotidianamente atingindo objetivos que se remetem somente a nós e isso nos deixam muito felizes. Quando compramos um chocolate na doceira, conseguimos guardar dinheiro para comprar aquele carro ou conseguimos o emprego que sempre quisemos, por exemplo. Haveriam então dois tipos de felicidades? Ou dois níveis comportamentais que levam o ser humano àquele estado [quase mágico] de completude? Para investigar isso, o laboratório do pesquisador Roy Baumeister, daStanford University, realizou um estudo com quase 400 pessoas tentando acessar esses dois conceitos ou conjuntos de comportamentos e verificar se existem diferenças entre pessoas que buscam ou cultivam cada um.

Para testar esses conceitos de forma mais concreta, os pesquisadores definiram Felicidade como a satisfação das necessidades e vontades, algo mais fisiológico, como um bem-estar subjetivo, que pode vir à tona por motivos como ganhar um jogo, conquistar uma mulher, sucesso no trabalho ou uma vida boa; e definiram Propósito (do inglês Meaningfulness) como uma ideia simbólica (como o significado de uma palavra), mas que afeta a realidade biológica. Complicado né? Pensa assim, é uma idéia que você tem e você luta para fazer sua ideia se tornar real, como homossexuais que lutam pelo direito de casar, mártires que morrem por um ideal ou idealistas de uma revolução, por ex. Um propósito envolve uma avaliação cognitiva e emocional na qual se questiona se se tem objetivos e valores. Pessoas pensam ter uma vida com propósito se elas vêem que isso é consistentemente recompensador de algum modo, mesmo que não possam articular o significado de tudo envolvido. Por exemplo, você pode não entender a lógica de por que sua ideia é certa, mas em achando que ela é certa, luta por ela simplesmente por lhe parece certa.

Apesar de os pesquisadores partirem dessas definições, eles deixavam os voluntários descreverem definições próprias para cara um desses conceitos, invés de impor-lhes definições específicas.

Além disso, os pesquisadores assumiram que muitas características da Felicidade e do Propósito  se sobrepõem. Por exemplo, ver um ideal cumprido traz as mesmas sensações de completude que ter uma vida que lhe permite comprar uma Ferrari. Podem ser em intensidades diferentes para cada pessoa, mas acontece. De qualquer modo, a hipótese do estudo foi de que há diferenças reais entre esses conceitos e que as pessoas poderiam refletir isso. Por exemplo, pode-se ter uma vida com um grande propósito sem, necessariamente, ser feliz, como um missionário religioso, um ativista político ou um terrorista.

Examinando os questionários sobre Felicidade e Propósito – entre outros como estresse -, os pesquisadores encontraram que uma vida feliz e uma vida com propósito, como esperado, se sobrepõem em muitas características, porém são, em última instância, MUITO diferentes. De fato, pôde-se traçar dois perfis diferentes de pessoas. Aqueles que guiam suas vidas pelo conceito da Felicidade, chamados no estudo de “captor” (do inglês Taker), e aqueles que guiam suas vidas pelo Propósito, chamados de “doador” (do inglês Giver).

Os pesquisadores mostraram que uma vida “Feliz” foi mais associada a uma vida fácil, saudável, a sentir-se bem, ser capaz de comprar o que precisa e o que quer, além de falta de estresse, preocupações e não-engajamento em desafios ou pensamentos profundos. Contudo, em uma perspectiva social, pessoas que buscam uma vida mais feliz tendem a ter comportamentos mais centrados em si mesmos – captores –, sendo menos propensas a tomar decisões sociais em prol do grupo, mas tomando decisões sociais em prol de si.

A psicologia evolutiva teoriza que a Felicidade é um movimento de redução. Se há uma necessidade ou desejo – como sede – satisfaz-se isso e torna-se feliz. Contudo, o estado fisiológico da felicidade é compartilhado com outros animais. Como nós, eles sentem fome, sede, saciam-na e sentem-se feliz por isso.

Já o estilo de vida centrada em um Propósito não mostrou muita associação com as variáveis referentes a bem estar ou ao impacto do bem estar. Contudo, as maiores associações foram com as variáveis sociais, como presentear os outros, cuidar de crianças (ou outros) e… discutir [exato discutir!]. Além disso, pessoas guiadas por um propósito tendem a tomar decisões sociais com o referencial no grupo e não em si – doadores – , fazendo sacrifícios em prol do grupo, mesmo que isso venha às custas de sua própria felicidade [no caso o estado fisiológico]. O estudo também mostrou que pessoas com propósito se preocupam e se estressam mais e são mais ansiosos que pessoas felizes. Isso é interpretado como causado pelo fato de eles investirem suas vidas em uma causa maior que eles mesmos.

Contudo, o resultado mais considerado como mais importantes pelos pesquisadores é outro. Felicidade, enquanto um estado fisiológico e emoção, é sempre sentida no aqui e agora. É sempre algo relacionado ao presente e, invariavelmente, passa, como toda emoção. São coisas fugazes! Mas o propósito transcende o momento presente, assim como transcende o estado do sujeito. No estudo, a quantidade de tempo que os voluntários reportaram se sentindo bem ou mal se correlacionou muito com o perfil da Felicidade, mas em nada com o perfil do propósito. Além disso, pessoas que reportaram pensarem mais focadamente no presente eram mais felizes, e pessoas que reportaram pensar nas lutas e sofrimentos do passado e futuro se sentiam com um propósito maior na vida delas, embora pudessem ser menos felizes. Segundo os próprios pesquisadores, “felicidade geralmente não é encontrada ao contemplar o passado ou futuro” (só desgraça?).

Além disso, os pesquisadores também encontraram que a ocorrência de eventos negativos na vida diminuem a felicidade (ÓBVIO), mas também aumentam os comportamentos que lhe encaixam no perfil de uma pessoa com propósito. O interessante é que um estudo de 2011 do mesmo grupo confirmou isso mostrando que pessoas que tem um propósito na vida, definido como um objetivo claro, reportam uma maior satisfação com a vida, mesmo que estejam se sentindo mal ou sob estresse, do que pessoas sem um objetivo claro. É interessante ver que Viktor Frankl já havia escrito que “se há um propósito na vida…. então tem que haver um propósito no sofrimento”.

Uma parte interessante (mas polêmica, confesso) da discussão desse estudo diz que uma das coisas que separa os seres humanos dos outros animais não é a procura da felicidade, mas a procura de um propósito, pois [acho que, por ser um traço cultural] é único ao ser humano.

Sei que, para alguns que valorizam a felicidade acima de tudo esse texto e estudo podem causar revolta e até confusão por que, como eu disse no texto, esse dois traços do ser humano se confundem na maioria das vezes. Mas há momentos da vida em que um dos ‘perfis’ se sobressai e isso é fato estudado, assim como a característica de cada perfil.

Fonte: Prisma Científico

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