A personalidade na antropologia de Viktor Frankl

Por Heloísa Reis Marino. Sociedade Brasileira de Logoterapia (SOBRAL).

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[dc]A[/dc] Personalidade humana, como objeto central da Psicologia e da busca do autoconhecimento, é pouco conhecida por nós na sua estrutura e dinamismo. Para uma descoberta e realização plena de sentido é importante um conhecimento profundo da dinâmica da personalidade e da vida psíquica.  Dentro deste contexto, a vida psíquica está dirigida para o desenvolvimento e a realização das possibilidades do ser.

Para compreender a totalidade e o conteúdo deste dinamismo e as múltiplas formas em que se experimenta a vida psíquica, se faz necessário considerar a realidade total e existencial da Pessoa, e conseqüentemente a estrutura da personalidade. A pessoa se manifesta através da personalidade, portanto, se esta é considerada somente como um complexo sistema de energia ou um conjunto de comportamentos, corre-se o risco de uma compreensão reducionista.

A antropologia Frankliana tem um fundamento filosófico nutrido numa seleção de autores que se integra numa Análise Existencial. A partir deste fundamento, a personalidade é entendida como uma estrutura aberta e que tem como núcleo a pessoa e seu dinamismo único e irrepetível, com uma intencionalidade em busca de sentido.

Esta busca de sentido é livre e também influencia na formação da personalidade, como a hereditariedade e o meio. Como diz Viktor Frankl: “Existe algo além do meio ambiente e da herança que constitui o homem: o que o homem faz de si mesmo; o “homem”, isto é, a pessoa; “de si mesmo”, isto é, do caráter. Por isso a fórmula de Allers: o homem tem um caráter, porém ele é uma pessoa, admite um complemento: e torna-se uma personalidade. A pessoa que uma pessoa é, dialogando com o caráter que tem, adotando uma posição diante dele, o configura e se configura a si constantemente, e “chega a ser “uma personalidade”.

O termo personalidade nasceu da palavra grega Persona, que significa máscara, porém, no sentido etimológico mais profundo, está vinculada a palavra “Personare”, que significa “ressoar através de”. A máscara no teatro grego servia ao ator como um instrumento de expressão de sua personagem e lhe permitia, através da entonação de voz, pela máscara, esta expressão. Isto traz à tona a idéia de interioridade. Existe uma pessoa (por trás da máscara) que se manifesta através de suas características físicas e psíquicas.

Uma análise do conceito de personalidade sem essa interioridade, ou seja, sem um núcleo, ou centro, pode confrontar com um dinamismo psíquico sujeito apenas a impulsos, instintos e sem liberdade; visto somente como um fruto do meio, sujeito a determinação dos condicionamentos externos e sem possibilidades de escolhas diante daquilo que lhe acontece ou do que os outros lhe fazem. É comum as pessoas pensarem que podem mudar, crescer e se desenvolver; porém também possuem uma visão de sua personalidade e daquilo que realmente a constitui, como algo que não muda; que aquilo que traz de herança (seja dos traços familiares ou das experiências vinculadas ao passado), necessariamente determina o que é agora; até que esta marca fatalmente definirá sua história futura. Porém, segundo Rudolf Allers, um psiquiatra católico, “ao mesmo tempo é interessante notar que, apesar de todos os discursos sobre características imutáveis, comportamentos determinados por hereditariedade e outras tantas coisas do mesmo tipo, cada educador procede no fundo convencido do contrário. Na realidade, toda exortação, toda repreensão, toda crítica e todo castigo representam no íntimo, uma prova de nossa confiança na natureza melhor do homem” e na possibilidade de mudança e de resposta do ser humano.

A personalidade humana, enfim, é pouco conhecida no que diz respeito à sua estrutura e dinamismo. Enquanto estrutura, existem alguns fatores que intervém na formação da personalidade e estes estão relacionados com as dimensões que constituem a realidade ou natureza humana. O primeiro fator refere-se aquilo que podemos chamar de dado, ou seja, o que o homem recebe através da herança genética: uma constituição física com suas características e os traços de temperamento, entre outros, que podem ser denominados de nossas DISPOSIÇÕES (como uma matéria prima a ser “trabalhada”). Outro fator refere-se ao que é chamado de adquirido, que trata do contexto em que a pessoa se encontra com suas vivências, o meio em que o indivíduo interage, em todos os sentidos, abordando a família, a parte educacional, o meio geográfico (climático), cultural, etc. Este segundo fator é denominado também de SITUAÇÃO, e apresenta as circunstâncias de cada momento da vida da pessoa e o meio em que ela está. Mas a personalidade não é formada somente a partir destes fatores, existe ainda a sua POSIÇÃO, que é a atitude livre do homem, ou seja, o ser humano adota uma atitude frente suas disposições e situação. Como ser livre, o ser humano apresenta algo mais que contribui na formação da sua personalidade, que é a sua autodeterminação. Este fator garante à pessoa a possibilidade de se posicionar diante da vida, decidir e escolher uma atitude frente a tudo que recebe, seja referente à sua herança genética ou o meio em que se encontra. Sempre é possível ao ser humano dar a sua resposta pessoal.

Resumindo, a estrutura básica da personalidade é construída dentro de um processo onde o indivíduo recebe uma herança; no período da gestação, nascimento e desenvolvimento infantil, combina o que recebe com o que adquire na sua relação com o meio, até alcançar a possibilidade de escolher conscientemente. Viktor Frankl cita que “Existe algo além do meio ambiente e da herança que constitui o homem: o que o homem faz de si mesmo”, diante disto pode-se constatar que a condução da personalidade se realiza no Eu.

Quanto ao seu dinamismo, o ser humano não vive simplesmente a vida como algo dado como vive um animal, mas a recebe como uma tarefa a realizar. Ele experimenta que, para além de buscar a satisfação de suas necessidades bio-psíquicas e sociais, existe algo a ser realizado, a ser construído. A personalidade é uma estrutura aberta, tendo como núcleo a pessoa, com um dinamismo único e irrepetível e com uma intencionalidade em busca de sentido. Esta busca que a acompanha em todos os estágios da vida é livre e, como a hereditariedade e o meio, influencia na formação da sua personalidade. O que a pessoa experimenta a partir de seus impulsos e emoções, e a sua percepção e ação é re-estruturado a partir de seu pensamento e de sua vontade livre, que busca o sentido. A dinâmica de um animal é simplesmente uma busca da satisfação de suas necessidades que garantem o seu desenvolvimento e a conservação de sua vida. Porém, a dinâmica do ser humano é diferente, existindo além da luta pela sua conservação e desenvolvimento, a sua experiência de busca de algo mais, uma vez que precisa descobrir porque vive, para que realiza cada ação, aspirando a coisas que transcendem a sua realidade, sendo criativo e agregando valores àquilo que vive. Se não pode fazer isso, não é feliz. Conforme vai vivenciando a sua responsabilidade por algo que pode realizar, se desenvolve e se plenifica. Assim vai configurando a sua personalidade.

É fundamental, para compreender como se dá a formação da personalidade, considerar o que é essencial no ser humano e o que o constitui como pessoa. Neste contexto, a sua liberdade, a sua capacidade de resposta e sua busca de sentido, devem ser foco de qualquer atividade educativa ou formativa.

Outro aspecto muito importante para ressaltar é que, a formação da personalidade está intimamente ligada ao desenvolvimento da vida moral, e, em sentido amplo, da vida religiosa. Para que uma pessoa faça suas escolhas, ela precisa perceber a possibilidade de valores que se encontram por trás de cada situação. Essa sua busca a direciona para realidades transcendentes, como já foi dito, mas, a descoberta do dever ser, do bem, da verdade que apela à sua resposta, é imprescindível para que haja uma mudança de atitude. Desde a decisão mais simples como dividir algo com um irmãozinho ou um colega, até a decisão mais radical de dedicar a própria vida a um ideal, envolve valores. Para optar por valores, ou melhor, por uma hierarquia de valores, é necessário, contudo que eles tenham sido compreendidos e, portando, que aconteça, preliminarmente, um conhecimento desses valores.

A pessoa que é gerada em um ambiente saudável, em todos os sentidos, principalmente na convivência com pessoas bem estruturadas, tem possibilidades de desenvolver-se e formar-se de maneira positiva, plena, e na sua trajetória de vida pode realizar uma busca por aquilo que vale a pena. Possui condições de realizar valores, escolher corretamente e assumir os efeitos de sua escolha, e fará parte de um processo educacional gerado desde o útero materno, e até antes, desde uma decisão tranqüila dos pais por uma vida. Este acompanhamento acontece em todas as fases do seu desenvolvimento, infância, adolescência, fase adulta e terceira idade, quando se pode apelar a uma educação dentro de contextos saudáveis.

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