A medicalização do sofrimento psíquico: considerações sobre o discurso psiquiátrico e seus efeitos na Educação

Por Renata Guarido. Universidade de São Paulo.

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[dc]M[/dc]uitos têm sido os trabalhos que, percorrendo a história da psiquiatria, dedicam-se a analisar as mudanças históricas verificadas nos tratamentos propostos aos sofrimentos psíquicos. Entre as mudanças mais marcadamente assinaladas por tais trabalhos, verificadas ao longo dos últimos 50 anos, estão os novos procedimentos diagnósticos propostos a partir da produção da série DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), bem como os avanços da medicalização como forma majoritária de intervenção terapêutica na atualidade.

Na sua grande maioria, as análises focam a presença atual de diagnósticos psiquiátricos que estabelecem bases biológicas para os sofrimentos psíquicos, aproximando os fenômenos mentais das doenças orgânicas, ou seja, vê-se um abandono crescente da descrição causal e de sentido dos sintomas apresentados pelo sujeito em benefício de uma noção em que os sintomas são reconhecidos como manifestações de desordens da bioquímica cerebral (Aguiar, 2004; Silva Jr., 2004; Roudinesco, 2000; Birman, 1999).

A biologia é fundamento incontestável da psicopatologia na atualidade. As neurociências fornecem os instrumentos teóricos que orientam a construção da explicação psiquiátrica. Por esse viés, a psicopatologia pretende ter encontrado finalmente sua cientificidade, de fato e de direito. Além disso, a nova psicopatologia acredita ter encontrado enfim com sua vocação médica, em um processo iniciado no início do século XIX, na medida em que se fundaria no discurso biológico. (Birman, 1999, p. 180)

Data de 1952 a primeira sintetização de um psicofármaco utilizado em tratamentos psiquiátricos. Desde então, a indústria farmacêutica investe, ano após ano, mais e mais recursos no estabelecimento de pesquisas na área da psicofarmacologia e investe grande parcela de recursos no marketing de novas drogas.

Se o uso dos psicofármacos pôde ter alguns efeitos positivos associado às mudanças propostas no tratamento da loucura – empreendimentos pós-asilares e a constituição do campo de reflexão e intervenções em Saúde Mental na oferta de alternativas de acolhimento e tratamento da loucura (efeito dos trabalhos da antipsiquiatria e do Movimento de Luta Antimanicomial) –, atualmente a psicofarmacologia e a neuropsiquiatria ganham espaço hegemônico no tratamento de sofrimentos severos bem como de uma gama muito maior de sofrimentos cotidianos.

Data também de 1952 a primeira versão da série DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) produzida nos EUA. Até 1980, quando se publica a versão DSM-III, os fundamentos do diagnóstico propostos por esses manuais expressavam influências da psicanálise e da psiquiatria social comunitária, ainda que pouco a pouco ganhasse ênfase a objetivação dos critérios diagnósticos baseados em experimentações científicas que afastavam cada vez mais a dimensão de sentido antes presente na consideração dos quadros psicopatológicos (Aguiar, 2004). Ainda segundo esse autor, cumpriram importante papel nas modificações teóricas do manual as questões econômicas envolvidas no incentivo de pesquisas americanas na área da psiquiatria. A falta de objetividade nos procedimentos psiquiátricos, antes da mudança estabelecida pelo DSM-III, bem como a falta de dados epidemiológicos acarretavam custos inadmissíveis pelas companhias seguradoras de saúde bem como pelos órgãos governamentais de incentivo à pesquisa em saúde mental.

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