A constituição sócio-médica do “fato TDAH”

Por Luciana Vieira Caliman. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[dc]E[/dc]m sua monografia sobre a origem e o desenvolvimento de um fato científico, Fleck (1935/1979) inicia sua análise com a seguinte pergunta: o que é um fato? De ponta a ponta, a resposta do autor se contrapõe à explicação de que um fato, científico ou não, como a definição de uma patologia, é um evento puramente objetivo, definitivo e permanente, ou seja, que sua descoberta resulta do avanço tecnológico das ciências que o investigam. Fleck critica o pressuposto de acordo com o qual, em sua neutralidade científica, um fato é imune à interpretação subjetiva do cientista e do coletivo no qual ele está inserido. Nesta visão, um fato, especialmente um fato médico, é uma realidade ou uma existência independente, não condicionada por fatores temporais e culturais. Contrapondo-se a essa perspectiva, Fleck ficou conhecido por oferecer uma análise sociológica do conhecimento científico na qual todo conceito, teoria ou verdade, científica ou não, é cultural e coletivamente condicionada.

Para Fleck (1935/1979), os fatos científicos se tornam reais no interior de um estilo de pensamento datado, específico de uma época. Uma explicação se origina e passa a fazer sentido somente se ela se enquadra no vocabulário moral e empírico do espaço e contexto ao qual ela pertence. O autor fala de uma prontidão (readiness) do cientista que guia sua observação, a escolha de seu método de trabalho, o desenvolvimento de seus resultados e interpretações desses resultados em uma certa direção: aquela privilegiada pelo coletivo que domina o pensamento científico da época.

De acordo com Fleck (1935/1979), a construção científica de um fato é constituída de muitos níveis. Em suas bases, encontramos vozes destoantes, opiniões e escolhas pessoais e contingências institucionais. Mas seu nível mais aparente revela apenas as partes já adaptadas ao estilo de pensamento do coletivo dominante. Na face mais superficial de construção do fato, ele surge como uma realidade unificada e permanente. Em sua última face, ele é transformado em uma realidade neutra e objetiva, imune aos conflitos e direções que, na verdade, fizeram parte de sua constituição.

Não resgatamos as ideias de Ludwik Fleck com o intuito de analisar sua teoria em profundidade. Desde ao menos a década de 70, muitos foram os autores que se dedicaram, e ainda se dedicam, a essa tarefa. No que diz respeito aos nossos interesses, Fleck foi um dos pioneiros na construção do olhar analítico que inspira nosso trabalho. Na pesquisa neurobiológica do Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), ciência, biologia e moral não se separam.

A primeira patologia específica da atenção originou-se das relações estabelecidas entre elas nas últimas décadas do século XX.

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